Massacration: uma boa piada ainda na mira dos intolerantes

Estadão

16 de abril de 2012 | 07h01

Marcelo Moreira

Rir de si mesmo é o melhor remédio na maioria das vez, aregoam terapeutas, livros de auto-ajuda e vendedores das mais diversas felicidades. O clichê, entretanto, é perfeitamente válido na hora de combater o bullying e na maioria dos casos de preconceito. E não há galera mais suscetível ao preconceito do que os radicais do rock – em especial os apreciadores de heavy metal.

Por isso é que muita gente ficou indignada quando a pseudobanda de heavy metal Massacration surgiu, em 2002, como extensão de um programa de humor da MTV Brasil. A repercussão dividiu os apreciadores do gênero: a maior parte detestou por se ver retratada, de certa forma, por um grupo zoando com todos os clichês do gênero. Outra parte entendeu espírito da coisa e gostou, achando bem engraçada aintenção humorística.

O resultado é que a coisa deu tão certo que o que era zoeira e mero apêndice de um programa de humor virou um projeto musical quase sério: as brincadeiras e sacanagens com o gênero permanecem, assim como o humor rasteiro e, de certa forma, escroto, mas agora faz shows em todo o Brasil, participa de festivais e já rendeu dois CDs hilários.

Brincadeira ou oportunismo? Com certeza a primeira coisa, e merece aplausos por aproveitar uma oportunidade de fazer graça com um tema “sagrado” e ainda ganhar elogios da turma.

O que pouca gente se recusa a saber é que o Massacration é uma banda de verdade, com músicos de verdade, que sabem tocar e compor, ainda que as músicas sejam piadas, algumas de gosto duvidoso.

A falta de senso de humor de parte expressiva dos roqueiros é estranha, pois é incompatível com um gênero musical que é muito sério, mas que sempre celebrou o lado mais interessante da vida e a música como verdadeiro caminho da satisfação pessoal. Não apenas um mero caso de ranzinzice ou intolerância cultural; chega a esbarrar em um preconceito até certo ponto preocupante.

O vocalista do Massacration, Detonator, também conhecido, de vez em quando, pelo nome verdadeiro, Bruto Sutter, vai apresentar um programa na MTV ainda neste ano. Ele deu entrevistas para alguns sites como Sutter, mas também encarnando o seu personagem, algumas até bem engraçadas pela quantidade de bobagens.

Foi só Detonator ressurgir na mídia para que os detratores acordassem e passassem a “massacrar” o Massacration, inclusive questionando se os músicos são realmente músicos e protestando contra a escalação do grupo para alguns festivais de metal nos últimos anos, “tomando o lugar de gente séria, honesta e batalhadora”, como vi recentemente em um fórum de metal. Como se os músicos e artistas que tocam no Massacration não fossem sérios e trabalhadores…

O ressurgimento de Detonator e Massacration reacendeu a ira que muitos fãs de metal. E isso e duro perceber que não são poucos os que não conseguem ou se recusam a entender/perceber a piada,  de entender o contexto e de se divertir – o que mostra claramente que esse pessoal reacionário e xiita se identificou claramente com a paródia e se sentiu envergonhado de ser “ridicularizado”.

O Massacration foi um sopro de inteligência que atingiu o segregado e cada vez mais desunido rock pesado brasileiro. A paródia jogou luz a um segmento musical extremamente rico, criativo e inventivo, mas ainda tomado por doses maciças de extremismo, radicalismo e preconceiro.

Se o grupo-paródia alcançou um sucesso inacreditável e inesperado, a ponto de desbancar nomes importantes do heavy metal nacional, é porque fizeram seu trabalho com competência. Por outro lado, é bastante preocupante que isso ocorra, pois mostra que a piada está sendo mais interessante do que a maioria das bandas nacionais. Isso é algo que precisa ser analisado com bastante cuidado e cabeça no lugar, sem paixão e sem radicalismo.

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