Marsalis e Clapton, encontro elegante e genial

Estadão

10 de setembro de 2011 | 23h22

Emanuel Bomfim

Assim foi o combinado: um escolhe as músicas, o outro faz os arranjos. Nada de estúdio. A fogueira seria no palco, assim como funciona na noite, berço de jazzista e blueseiro que se preze. O trato, aparentemente informal, esconde uma admiração e respeito mútuo entre dois veteranos: Eric Clapton e Wynton Marsalis.

O duo já havia compactuado do franco diálogo da guitarra com o trompete no recente álbum do britânico, Clapton (2010). Agora, era a vez de encarar a plateia da “academia” do norte-americano, a Jazz at Lincoln Center, em Nova York.

A célebre festa, clima de baile de gala de fim de ano, ocorreu em abril e, para alegria dos fãs, acaba de ganhar edição em CD e DVD, a serem lançados pela Warner. Na web, como praxe, o material já está à disposição para deleite dos ouvintes mais curiosos.

Quando Clapton enviou a lista de temas para o concerto, Marsalis não escondeu a empolgação. À prova estava uma enciclopédia do blues, patrimônio da formação musical dos dois. “Queríamos que esses shows soassem para as pessoas como uma reverência às músicas que amamos, não como um projeto”, descreveu o alinhado jazzista, responsável por azeitar a formação ‘King Creole’ da apresentação.

Em pauta, realmente foi mais do que blues. Do Delta de Memphis ao Caribe, o engajamento de ambos se deu por vertentes que congregam gospel, soul, rhythm and blues e até rock and roll. Louis Armstrong iria se emocionar. Está tudo lá: o ragtime de Ice-Cream, o boogie-woogie de Kidman Blues, o blues marcha lenta de Joe Turner’s Blues e Careless Love, standard da década de 20 de Bessie Smith.

Marsalis e Clapton ao vivo em Nova York, em abril deste ano (foto: Richard Perry/The New York Times)

“Ele escolheu sons de diferentes regiões, com funções, significados e grooves específicos. O set list por si só é a prova da sofisticação do gosto de Clapton”, elogiou o trompetista, filho do pianista Ellis Marsalis, patrono da família que mais contribuiu para o jazz na história.

Das 12 músicas executadas por duas noites no lotado teatro Rose Hall, uma foge ao recorte tradicionalista impresso pelo guitarrista: Layla. A sugestão para incluir o hit setentista do Derek and the Dominos partiu do baixista Carlos Henriquez e foi arranjada por Marsalis como um lamento, espécie de canto fúnebre, a la St. James Infirmary Blues. “Eu achava que não iria funcionar”, se desculpou Clapton antes de tocá-la com impressionante entrega. É o ponto alto do show, por mais irônico que pareça.

O espírito vintage foi encarado com seriedade por Clapton no traje e instrumentação. Vestiu um terno e trocou de guitarra: em vez de sua tradicional Fender Stratocaster, levou uma Gibson, com menos volume, recordando o período ao lado de John Mayall & BluesBreakers.

A estrutura aparentemente rígida imposta por Marsalis não sufocou os solos obstinados do britânico. Se bem que ele pouco fazia questão. “Eu prefiro tocar as partes rítmicas do que qualquer um dos solos”, declarou humildemente ao jazzista nos ensaios, que foram apenas três.

Não bastasse o encontro de dois virtuosos em noite inspirada, o final da apresentação trouxe para o palco mais uma lenda do blues: o modernista Taj Mahal. Responsável por incorporar o folk caribenho, o zydeco e outras levadas provenientes do leste africano, o cantor desfilou seu vozeirão pelos temas Just A Closer Walk with The e Corrine, Corrina – essa última com a big band no entorno, em grande performance, como se fosse encerrar um certo formalismo e começar a parti dali um carnaval de rua.

Para Marsalis, o já mítico registro foi uma “celebração do poder internacional do blues”. Eric Clapton procurou ser menos eufórico, voltou a reverenciar o gênero do colega. “Eu costumava dizer a todos os bluesmen que conheci: ‘Eu só estou fazendo isso até começar a tocar numa banda de jazz’.”

Insistir em enxergar diferenças segregacionistas entre o jazz e o blues parece uma heresia. Como disse o trompetista: “É o momento perfeito para encontrar o o que temos em comum”.

 

Registro obrigatório com rigor

Eric Clapton já vinha emprestando um olhar afetuoso ao passado. Prova é seu último álbum, espécie de imersão pela tradição do blues de New Orleans. Ao juntar forças com Wynton Marsalis, acadêmico do jazz e nostálgico por convicção, o guitarrista britânico renova o fascínio pela matriz cultural de ambos.

O clima, como não poderia deixar de ser, é de festa, de jam session: dois gênios em ação reverenciando as bases do blues de Memphis e da vertente de Chicago, apoiados por uma genuína brass band.

O apuramento técnico, como esperado, é absurdo, indiscutível. Inédito, no entanto, é o encontro do espírito roqueiro de Clapton com o rigor estético de Marsalis. O das cordas, elétrico, é mais abusado. O dos sopros, acústico, é mais aplicado.
São perfis que convergem para uma estrutura sólida, mas indefinida. Se a mera sugestão já dava jogo ganho, o desfile no palco se concretiza numa goleada. Bravo! Bravíssimo!

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