Mark Lanegan, um grunge sombrio

Estadão

11 de abril de 2012 | 17h00

Roberto Nascimento

Um indicador da razoável forma artística do roqueiro Mark Lanegan é o fato de que ele continua marrento. Localizado em Viena pela reportagem do Estado, com cinco minutos para falar sobre o seu novo disco, Blues Funeral, o ídolo grunge foi seco: “Chamei o meu álbum de Blues Funeral porque ele tinha de ser chamado de alguma coisa”, respondeu a uma pergunta sobre o título e sobre a atual importância do blues em sua música, que já foi do grunge dos Screaming Trees ao folk rock de seus discos solos ao rock and roll de alta voltagem de participações com o Queens of Stone Age.

“Olha, nos anos 90 e no início dos anos 2000 eu trabalhava com estas coisas. Hoje em dia apenas escrevo canções que me dão vontade de compor”, disse, vagamente. O músico estará em São Paulo no fim de semana que vem, para um show no Cine Joia.

Felizmente, há mais do que uma simples vontade de fazer o que se quer na música de Lanegan. Blues Funeral, lançado este ano, é uma síntese de muito o que se passou artisticamente com o cantor ao longo da última década.

O disco inclui participações de Josh Homme, do Queens of Stone Age, tem ecos de seu disco de folk rock com Isobel Campbell, do Belle and Sebastian, e logicamente, traz os lamentos de sua voz curtida, que sugere o blues através de influências de Tom Waits e Leonard Cohen.

As origens desta identidade artística está no final dos anos 80, quando Lanegan já era um dos expoentes da cena grunge, e aos poucos descobriu o fascínio pela música de raiz americana. Tinha planos de gravar um disco de covers folk com Kurt Cobain e Krist Novoselic, que não deu certo.

Mas o projeto acabou por tornar-se o seu primeiro disco, The Winding Sheet, que tem um cover de Where Did You Sleep Last Night, de Leadbelly, com participação de Cobain. O fascínio pela música de raiz americana continuou durante os anos 90. Blues, country e folk entraram em uma mistura que Lanegan apurou durante quatro álbuns.

No início dos anos 2000, Lanegan foi brevemente o vocalista da banda de rock Queens of Stone Age. Gravou um disco, Songs for the Deaf e fez turnê com o grupo.

Mas mesmo que tenha pouco a dizer sobre sua música hoje em dia, Lanegan é uma figura importante nos anais do rock and roll. Sua banda Screaming Trees, formada em meados dos anos 80, é considerada uma das madrinhas do grunge, junto aos Melvins, o Soundgarden e o U-Men.

Mesmo tendo chamado a atenção de gravadoras maiores desde o primeiro disco, os Screaming Trees mantiveram o foco independente para fazer uma mistura de psicodelia com hard rock. Na formação original da banda, Lanegan era o baterista, mas já disse que era tão ruim que o colocaram para cantar.

Foi a sua sorte, pois embora até hoje seja uma das bandas menos conhecidas do movimento grunge, os Screaming Trees foram influentes na formação do som de Seattle. (Em uma carta a Lanegan, Kurt Cobain disse que a canção Polly Penguin, do disco Beat Happening, de 1988, era a sua música predileta dos anos 80).

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