Mark Farner e seu funk da pesada

Estadão

13 de março de 2012 | 01h00

Bento Araújo -especial para o Estado de S. Paulo

O Grand Funk Railroad provou que rock pesado com funk dá jogo.  O grupo que colocou Beatles e Led Zeppelin pra correr, hoje não passa de mais uma banda esquecida dos anos 70.  Celebrando altos e baixos, o ex-líder Mark Farnerse apresenta pela primeira vez no País em março, e falou com o Estado a respeito…

Eles já foram a maior banda de rock dos EUA e ídolos do típico working class hero americano.  Em 1970, venderam mais álbuns do que qualquer outro artista por lá, incluindo Elvis e Beatles.  No ano seguinte quebraram um importante recorde dos próprios Beatles ao vender todos os ingressos para um show no Shea Stadium, em NY, em bem menos tempo que o grupo de Liverpool anos antes.  O que aconteceu com a banda preferida dos veteranos do Vietnã, de Homer Simpson e de Michael Moore?

O ódio da crítica musical especializada certamente contribuiu, assim como o desdém de músicos de outras bandas famosas.  O GFR sempre foi o tipo de banda que os críticos amam odiar.  Era um raro exemplo de sucesso de heróis da classe trabalhadora – três caras rudes chafurdados nos excessos luxuriosos do show biz.  Claro que incomodava.

Numa atitude voluptuosa típica de que “já que estou no inferno abraço o capeta”, todos aproveitavam ao máximo a grana que não parava de entrar.  O ego dos integrantes, e principalmente de seu empresário, guru e produtor – Terry Knight – era mastodôntico.  Chegaram a bancar um outdoor quilométrico com o rosto dos três integrantes em plena Times Square.

Mark Farner em ação no Via Marquês, em São Paulo (FOTO: IRISBEL MELLO)

Para anunciar o show no Shea Stadium, convidaram 100 jornalistas do mundo todo, com todas as despesas pagas, organizando assim uma megaconferência de imprensa.  Menos de 10 apareceram. Mark Farner, Mel Schacher e Don Brewer vieram de Flint, Michigan, na época a cidade mais violenta dos Estados Unidos.  Começaram em bandas amadoras de garagem e influenciados pelos sons da Motown misturaram rock pesado com o groove malandro da música negra.

De 1969 até 1971, o GFR lançou nada menos que seis álbuns multiplatinados, sendo um deles o duplo ao vivo Live Album, disco de cabeceira de Lobão.  A energia que o trio apresentava no palco era cativante e brutal.  O tipo de sinergia que grupos como Black Keys e outras trocentas bandas indies atuais tentam alcançar, mas nem chegam perto.

Músicos de outros grupos achavam apenas graça da inabilidade musical do GFR.  Jimmy Page, do Led Zeppelin, era um que criticava o estilo “rock primata” da banda, mas sentiu na pele o troco.  Numa ocasião o GFR abriu para o Zeppelin, cujo empresário, Peter Grant, cortou a energia elétrica do palco bem no meio do show do grupo de Farner.  O público reclamou e Terry Knight pegou o microfone e falou: “O Led Zeppelin está com medo do Grand Funk Railroad”.  Delírio total.

A estreia do trio nos palcos foi num gigantesco festival, o Atlanta Pop Festival, em 1969, como banda de abertura.  A repercussão foi tamanha que no dia seguinte eles voltaram a tocar, e no ano seguinte, eram headliners.

Farner falou ao Estado antes de seu fantástico show no último sábado, em São Paulo, sobre a apresentação em Atlanta e outros shows históricos que fez com sua antiga banda: “O Atlanta Pop Festival foi incrível.  Eram 185 mil pessoas.  Agitamos o público e o estádio balançava tanto que parecia que ia desmoronar.  Foi um dos melhores shows da nossa carreira”.

Comandante dessa intensidade toda, o guitarrista e vocalista Mark Farnerdisse estar feliz com a turnê pela América do Sul: “Estou empolgado!  Muitos fãs brasileiros pintam nos meus shows aqui nos EUA e sempre me dizem algo sobre o Brasil.  Mal posso esperar para abraçar o povo brasileiro, que sei que tem muita paixão”.

Uma música esperadíssima nos shows é a épica I’m Your Captain/Closer To Home.  Farner tem um carinho especial por ela: “Muitos fãs dizem como essa música mudou, ou salvou as suas vidas. É também a canção número um entre os veteranos da Guerra do Vietnã”.

Em 1972, o GFR virou um quarteto com a entrada do tecladista Craig Frost.  O som ficou mais trabalhado e mais pop.  Nos anos seguintes chegaram ao topo das paradas com o sucesso We’re an American Band,  uma regravação de The Locomotion e a balada soft Bad Time.  Brigaram feio com Knight e na produção passaram a contar com nomes de respeito, como Todd Rundgren e até Frank Zappa.  Para alguns, o GFR havia aprendido a compor e a executar apropriadamente o seu material, para outros, havia simplesmente perdido seu vigor.

Farner já esteve na América do Sul em duas ocasiões, na Venezuela, com o GFR em 1982, e no Chile em carreira solo em 2000: “Na primeira ocasião, eu estava muito empolgado por tocar na América do Sul e para saber qual seria a reação dos fãs.  Fiquei impressionado com tudo, o show estava com os ingressos esgotados e a plateia adorou.  No show de Santiago, em 2000, havia muitos fãs insanos que agitaram tanto que pensei estar em Woodstock!  Amei cada instante”.

Na década de 80, Farner virou pastor e até hoje segue suas convicções cristãs, mas nunca abandonou o rock.  Seus antigos companheiros, Don Brewer e Mel Schacher, continuam na estrada com uma versão capenga do GFR, algo na pegada do Creedence Clearwater Revisited, que insiste em excursionar sem o líder John Fogerty.  A prescrição para ambos os casos é a mesma: vale muito mais ver Farner e Fogerty em carreira solo do que suas ex-bandas sem eles.

E vem a pergunta inevitável: será que Farner voltará a se reunir com o Grand Funk Railroad?  “Gostaria de ver o grupo junto novamente para fazer a felicidade de nossos fãs.”

 

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