Máquina do tempo: exposição resgata o rock brasileiro dos anos 70

Estadão

15 de janeiro de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira, Especial para o Estado

Tarde quente no sujo centro de São Paulo neste finzinho de 2012. Três homens aparentando mais de 50 anos entram na Galeria do Rock e vão direto a uma das lojas mais importantes e antigas dali. Cumprimentam a todos e abraçam o dono, empresário que já bancou gravações e LPs de boa parte do underground paulista dos anos 70 e 80.

Liminha, o então baixista dos Mutantes - hoje produtor - é flagrado em 1972, antes de um show - Divulgação
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Liminha, o então baixista dos Mutantes – hoje produtor – é flagrado em 1972, antes de um show

Um garoto olha para os homens e fica intrigado com o de chapéu preto, óculos escuros e camiseta preta. “Será que o cara acha que é cantor de rock?”, brinca inocentemente com a amiga de iguais 18 ou 19 anos.

Após algum tempo, Oswaldo Vecchione, ao lado do irmão Celso e do amigo Vespaciano Ayala, vão embora. Percebendo a curiosidade do garoto, ainda fitando Vecchione, que usava o chapéu, um frequentador assíduo da loja Baratos Afins, falou alto para todo mundo ouvir: “Adoro Made in Brazil. Foi muito legal conversar com os integrantes.” O casal de garotos empalideceu e saiu atrás dos músicos em seguida.

A cena ilustra um incipiente e súbito interesse por grupos brasileiros de rock dos anos 70 do século passado em algumas das mais cultuadas lojas de CDs e LPs que sobrevivem na capital paulista.

Lojistas comentam que cresceu em 2012 o número de interessados em álbuns do Tutti Frutti (ex-banda de Rita Lee e com o produtor Luís Carlini participando da formação atual), Mutantes da fase progressiva, Som Nosso de Cada Dia, O Terço e outros nomes importantes da época.

E o interesse deve aumentar este mês com a abertura da mostra SP_Rock_70_Imagem, no Sesc Belenzinho. Do dia 19 até março, o evento reunirá a mais expressa mostra de imagem do rock feito especialmente em São Paulo há 40 anos.

Fotos raras e inéditas de artistas nos palcos e na intimidade são destaque, mas o painel de capas de LPs não fica atrás, cortesia do curador da exposição, o músico, compositor, jornalista e pesquisador Moisés Santana.

“Sou de Salvador e vivenciei toda a cena musical dos anos 70, sei como era difícil ter acesso a LPs e shows das bandas importantes na Bahia. O rock nacional transbordava criatividade e inteligência, mas não teve o reconhecimento merecido por conta da época difícil em que o Brasil vivia, ainda no regime militar e com pouco interesse das grandes gravadoras e redes de TV”, diz Santana.

Algumas capas e fotos foram feitas por artistas, também jovens na época, como Juarez Machado, Carlos Vergara, Antonio Peticov, Bicalho, Waltercio Caldas, Miguel Rio Branco, André Peticov, Alain Voss, David Drew Zing. O time de fotógrafos com trabalhos incluídos na mostra é de primeira: Ana Arantes, Antonio Freitas, Carlos Hyra, Flavia Lobo, Hermano Penna, Leila Lisboa, Márcia Rebello, Mario Luiz Thompson e Vânia Toledo.

O evento multimídia envolve também palestras, exibição de trechos do documentário SP_Rock_70_Doc, de Moisés Santana e recheado de entrevistas com músicos, e shows nos fins de semana. A primeira atração é o Made in Brazil, dos irmãos Vecchione, que entram no 46.º ano de atividade tocando na íntegra o seu clássico álbum Jack, o Estripador.

Outro nome imperdível é Próspero Albanese, com o show A Voz do Joelho, interpretando músicas de sua carreira solo e do seu Joelho de Porco. O resgate do rock setentista trará pérolas como Terreno Baldio, Casa das Máquinas, Patrulha do Espaço e Tutti Frutti, além da banda 70 de nOvo, que reúne músicos de bandas da época.

Da safra atual, também há atrações interessantes, todos influenciados pelo som da época. O Pedra talvez seja o grupo que mais demonstra e se orgulha de beber nas bandas setentistas. Em alguns momentos, é quase um cruzamento de Mutantes, Tutti Frutti e Patrulha do Espaço. O Baranga e o Carro Bomba fazem um rock mais pesado, incorporando muito do hard rock inglês da época, mas com nítidas influências de bandas brasileiras.

Moisés Santana não gosta do termo revival. Prefere dizer que SP_Rock_70_Imagem retrata parte importante da história musical e cultural do País, já que reúne trabalhos de artistas dos mais notórios da fotografia e artes plásticas, sem falar na música em si.

“A exposição revela que artística e culturalmente o rock dos 70 foi muito expressivo, apesar de pouco reconhecido. Fala-se muito, e com razão, de Mutantes, Raul Seixas, Rita Lee, Novos Baianos e Secos & Molhados, mas havia mais do que isso, existia uma cena prolífica, que produziu ótimas obras revelou músicos de boa qualidade, que não puderam desfrutar as boas condições político-culturais que o rock dos anos 80 teve”, diz Santana.

O curador faz questão de ressaltar a importância do visual nos trabalhos das bandas, que mostraram a alta qualidade de artistas que se transformariam em nomes de ponta. “Os fotógrafos, artistas gráficos e plásticos queriam se redescobrir e inventar a partir do som. Boa parte deles, ainda em formação profissional, usava e abusava de suas câmeras, pranchetas, réguas e pincéis como instrumentos ‘musicais’.”

As técnicas eram semelhantes às de artistas importantes estrangeiros, como os ingleses Roger Dean (desenhista das capas de Yes e Uriah Heep, entre outros) e Storm Thorgerson (da empresa Hypgnosis, das capas do Pink Floyd): criava-se imagens a partir dos sons e, completando o ciclo, influenciando também a música.

“Com isso, inventaram uma linguagem. No caso do LP, os 30 cm² de capa e contracapa eram suficientes para uma expressão artística com alcance superior ao de uma galeria de arte”, diz Santana.

Zé Brasil, um dos mentores da banda setentista Apokalypsis e do combo 70 de nOvo, está mais empenhado em resgatar e reviver a cena roqueira da época. Ele cita as dificuldades de se fazer música mais elaborada, com letras de protesto, na ditadura militar. “É evidente que o rock era mais visado, não havia abertura nem muito espaço para expormos nossos trabalhos. eram dificuldades além das naturais, como falta de instrumentos e equipamentos de qualidade e produtores e executivos que entendessem o que era rock.”

SP_ROCK_ 70_IMAGEM Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, 2076-9700. 3ª a 6ª, 10 h/ 21 h; sáb. e dom., 10 h/ 18 h. Grátis. De 19/1 a 10/3 – www.sescsp.org.br/Belenzinho.

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