Manowar prestes a cometer a heresia: regravar 'Battle Hymns'

Estadão

12 de dezembro de 2010 | 15h27

Marcelo Moreira

A onda de regravações de CDs clássicos por bandas variadas virou febre ultimamente. É a muleta da vez. Durante períodos de vacas magras e crises criativas, a saída eram os caça-níqueis ao vivo. Depois, nos anos 90, veio a praga dos acústicos – e os acústicos ao vivo; logo em seguida, vieram os álbuns de covers, versões de músicas de outros artistas.

Muita gente boa aderiu às regravações ou lançamentos ao vivo de álbuns clássicos. Dio fez isso com o maravilhoso “Holy Diver”; o Queensryche, com “Operation Mindcrime”; o Judas Priest, com “British Steel”; o Dream Theater também fez a mesma coisa com “Images and Words”, mas apenas um avez (por enquanto, no aniversário de 15 anos do lançamento do álbum original – mas que virou DVD e CD.

A bola da vez agora é o Manowar, expoente do heavy metal tradicional com temas épicos. O quarteto norte-americano está regravando o clássico “Battle Hymns”, álbum de estreia, lançado originalmente em 1982, e que deverá chegar às lojas em meados de 2011.

O fantástico ator Christopher Lee (que atuou em “O Senhor dos Anéis”, “Star Wars”, “O Homem com a Arma de Ouro” e “Dracula”, entre outros), fará uma participação especial, narrando alguns trechos. Lee já participou de gravações da banda de metal italiana Rhapsody of Fire (antigo Rhapsody) e gravou o próprio álbum de metal, “Charlemagne” (fato que será comentado em breve por aqui).

O baixista e dono do grupo, Joey DeMaio, afirma que a ideia foi dar uma “roupagem” mais moderna a um clássico do rock. “A produção ficou aquém do que imaginávamos, foi o que deu para fazer na época. Foi maravilhoso, mas ficará ainda melhor”, disse ao site Blabbermouth.net.

O Manowar é uma boa banda, manteve sua integridade mesmo em tempos de baixa, como nos anos 90 e apesar do marketing infantil do “somos os verdadeiros artistas do metal, morte ao falso metal” e coisas parecidas – sem falar nas roupas ridículas de gladiadores.

A qualidade musical é inquestionável, como se pode observar no recente RP “Thunder in the Sky”, que conta com um CD bônus com a correta música “Father” cantada em 16 idiomas, inclusive o português.

Em “Warriors of the World”, de 2002, há uma versão maravilhosa para  “Nessun Dorma”, uma ária do último ato da ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini. Também uma ótima versão para “An American Trilogy”, que teve sucesso na voz de Elvis Presley.

Assim sendo, qual o sentido de se regravar um álbum que já é clássico no heavy metal? É o tipo de coisa que o grupo nada ganha, só tem a perder. Se a ideia era comemorar com esse projeto os 30 anos de carreira, erraram feio.

Entre as bandas grandes, o Exodus cometeu esse sacrilégio ao lançar “Let There Be Blood”, de 2008, que pretendeu ser uma regravação do maravilhoso “Bonded by Blood”, de 1985, marco do thrash metal. O pretexto era homenagear Paul Balloff, vocalista morto em 2002, com Rob Dukes como cantor. O trabalho ficou muito bom, mas era perfeitamente desnecessário.

Saxon e Helloween preferiram caminhos diferentes, mas com resultados questionáveis. Os ingleses do Saxon lançaram “Heavy Metal Thunder”, de 2002, quando foram regravados 13 clássicos com o intuito de “modernizar” músicas que se tornaram hinos do metal. O resultado ficou ótimo, mas o álbum é desnecessário.

O Helloween fez muito pior neste ano. Lançou “Unarmed”, um álbum de regravações de clássicos da banda para comemorar os 25 anso de carreira, só que com outros “elementos”: corais, orquestrações, pouquíssimas guitarras e aranjos inusitados. Ficou um horror.

“A ideia era fazer algum bem original, bem humorado e diferente, com arranjos diferentes e inusitados, para fugir do óbvio”, disse Michael Weikath, guitarrista fundador do Helloween, à revista inglesa Kerrang!.

A lista vai longe. O Kiss fez o mesmo que o Saxon em “Jigoku Rentsuden”, de 2008, só com regravações de clássicos para o mercado japonês – e que acabou virando CD bônus de uma edição especial de “Sonic Boom”, álbum de 2009.

O Uriah Heep comemorou 40 anos de carreira lançando no ano passado “Celebration”, com duas músicas inéditas e 12 regravações. Foreigner, os thrashers alemães do Destructi0n e alguns outros foram na mesma linha.

Até mesmo no Brasil isso ocorreu, com o lançamento no final do ano passado de “Original Sin”, do Dr. Sin, que regravou inteirinho o álbum de estreia da banda, “Dr. Sin”, originalmente lançado em 1993. Ficou muito bom, até porque a produção na época não foi das melhores. Mas não adianta: não era necessário, o original foi um marco rock pesado nacional.

Quem será o próximo a cometer a heresia?

 

“Battle Hymns 2011

01. Death Tone
02. Metal Daze
03. Fast Taker
04. Shell Shock
05. Manowar
06. Dark Avenger
07. William’s Tale
08. Battle Hymn

Bonus Tracks:

09. Death Tone (live)
10. Fast Taker (live)

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