Mangue beat acabou com a morte de Chico Science – e não deixou saudade

Estadão

20 Junho 2011 | 07h00

Marcelo Moreira

Indignação barata contra qualquer coisa costuma ser bastante engraçada – e fica mais engraçada quando o indignado fica cada vez mais bravo quando é alvo de piadas e gargalhadas por conta de sua “indignação”. E isso vale para todos os pseudointelectuais que adoram fazer discurso de boteco com teses sobre o nada.

Um desses resolveu fazer um discursinho desprovido de nexo recentemente em uma reunião de amigos em São Paulo. Os amigos, todos eles, são roqueiros de bom gosto, e muito bem informados sobre o gênero, desde o classic rock até o metal mais extremo.

Só que um amigo de um amigo, desses que acham que estudar na USP é passaporte imediato para a intelectualidade, resolveu que iria dar uma aula de música e cultura aos “pobres ignorantes” após saber – e ficar indinado – que eu era o autor de dois textos no Combate Rock criticando o grunge e os Mutantes.

O cidadão, um daqueles revoltadinhos de shopping, não conseguiu terminar o palavrório por conta das gargalhadas gerais que provocou ao bradar que Kurt Cobain (Nirvana) e Chico Science (Nação Zumbi) eram gênios e que o tal mangue beat pernambucano tinha a mesma importância para o Brasil que o movimento grunge.

Isso me faz lembrar que 2011 marcará os 15 anos da morte de Science em um acidente estúpido de carro perto da divisa entre Recife e Olinda, em Pernambuco. Com certeza, assim como no caso dos 20 anos do grunge, surgirão textos e mais textos exaltando o tal movimento e o artista.

Eu até concordo na comparação entre grunge e mangue beat, só que em relação à falta de qualidade. Músicas ruins, bandas ruins, músicos sem talento – exceto pelo guitarrista Lúcio Maia, que mostrou saber tocar o seu instrumento de modo satisfatório. Igualzinho ao movimento de Seattle – tanto que o mangue beat não durou, para a sorte de nossos ouvidos.

DIVULGAÇÃO - FRED JORDÃO

Chico Science não era um moleque perdido e sem noção do que ocorria no mundo. Era jornalista por formação e um homem inteligente. Suas entrevistas sempre eram interessantes e rendiam por horas e horas.

Ao mesmo tempo, era um cara simples, de hábitos comuns e desprovido de qualquer estrelismo asqueroso. Só que, diante de sua inquietude intelectual, achava que era realmente um revolucionário – embora nunca reivindicou só para si os louros do sucesso momentâneo obtido pela Nação Zumbi.

O fato é que o mangue beat até foi novidade em um cenário de pobreza extrema na música pop nacional em meados dos anos 90, quando apenas os Raimundos mostravam um sopro de qualidade e inovação.

Só que ser uma novidade nem sempre basta. É preciso fazer música boa, e não apenas misturar um monte de coisas com barulhinhos eletrônicos irritantes em cima de letras sem pé nem cabeça.

O caráter supostamente revolucionário e a aura de suposta intelectualidade que envolvia Science, a Nação Zumbi e outras bandas semelhantes atraiu a atenção de grupelhos de pseudointelectuais em várias partes do Brasil, geralmente de esquerda, que abraçaram esses artistas como se fossem o máximo da contestação e o farol que iluminava o futuro da música pop brasileira.

A morte de Science antecipou o desmoronamento de um “movimento” que na verdade nunca existiu de fato. Foi soterrado por uma atração pré-fabricada, como os Mamonas Assassinas, e pela honestidade e simplicidade do rock pauleira dos Raimundos.

Capa do CD 'Afrociberdelia", de 1996, da Nação Zumbi, ainda com Chico Science

Assim como o grunge, o mabgue beat não passou de um suposto movimento passageiro, que não deixou saudades, a não ser em gente que se contenta com pouco.

Chico Science e o mangue beat tiveram alguma repercussão em meados dos anos 90, e talvez até mereçam alguma menção em enciclopédias musicais – provavelmente no rodapé de uma página, não mais do que isso.

Uma formação recente da Nação Zumbi

Legião Urbana: começou o soterramento

Eu já havia alertado aqui o começo do ano: nos 15 anos da morte de Renato Russo, em 2011, seríamos soterrados com toda a sorte de lixo relativo à banda, de reedições de seus discos ruins – que são todos – até “documentários” e extensas “análises” em jornais e TVs sobre a “importância” da obra da banda de Brasília, quase tão superestimada quanto à dos Mutantes – leia o texto antigo aqui.

E a avalanche de tranqueiras sobre a banda despejadas sobre as cabeças do pobre leitor foi identificada pelo Jornal da Tarde na edição de ontem, domingo, de autoria de Felipe Branco Cruz:

A divulgação, nesta semana, de um clipe em que os atores Wagner Moura e Alinne Moraes cantam na íntegra Tempo Perdido é mais uma entre tantas provas de que a banda Legião Urbana, que acabou há 15 anos (em 1996), não só continua viva e como parece estar ganhando ainda mais força no cenário musical. O vídeo faz parte do material de divulgação do filme O Homem do Futuro, de Cláudio Torres, com estreia prevista para 2 de setembro.

Há uma semana, no dia 12 de junho, Dia dos Namorados, a operadora de telefonia Vivo divulgou um clipe da música Eduardo e Mônica, realizado especialmente para a ocasião. O vídeo teve produção da O2 Filmes, de Fernando Meirelles. Esta, no entanto, foi uma entre tantas canções do Legião que nunca tiveram um clipe oficial.

Os exemplos dessa recente invasão da banda são inúmeros. Até o fim do ano, será lançado em circuito comercial o longa Faroeste Caboclo, com direção de René Sampaio, que conta a história da música homônima. A trajetória de Renato Russo e a história de sua banda também ganharão as telonas. Somos Tão Jovens, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, está sendo rodado e será lançado em 2012. Além disso, a música Que País é Esse entrou na trilha sonora da novela das 9 da Globo, Insensato Coração, colocando a banda ainda mais em evidência.

No fim do ano passado, toda a discografia do Legião foi relançada, remasterizada e em vinil. Para completar, os filmes Vips (2010), de Toniko Melo, e Meu Nome Não é Johnny (2008), de Mauro Lima, também tiveram músicas da banda incluídas na trilha sonora. Numa busca rápida no YouTube, o internauta também encontra vários vídeos de pessoas que incluíram o som do Legião em produções caseiras.

As pessoas que têm bom  gosto e não se contentam com pouco – ou seja, gente que não leva coisas como Legião Urbana a sério – só tem uma coisa a dizer: socorro!!!!!!!!!!