Mais terra em cima da 'sepultura' do rock nacional

Estadão

15 de junho de 2012 | 06h42

Alguns textos publicado aqui neste Combate Rock afirmando que o rock e o pop nacionais estão mortos e devidamente enterrados causaram certa polêmica entre os leitores. Com base nas listas sobre execuções radiofônicas publicadas mensalmente pela revista Billboard Brasil, a conclusão é clara: o rock brasileiro deixou de existir para uma parcela importante e expressiva do mercado  e para a maioria dos consumidores de música deste país. Entre as 100 mais executadas no mês de abril, por exemplo, apenas quatro músicas eram rock/pop, e em colocações muito abaixo do 50º lugar. O texto abaixo, do colunista Miguel Sokol, da ótima revista Rolling Stone Brasil, publicado na edição de maio deste ano, ajuda a jogar um pouco mais de terra no rock-pop nacionais em um texto lúcido e esclarecedor. O Combate Rock não tem apreço pelo rap nem pelo hip hop, em sua grande maioria, mas respeita tais manifestações. E concorda com a tese exposta por Sokol. (Marcelo Moreira)

Miguel Sokol – colunista da Rolling Stone Brasil

Abaixo há dois trechos de letra de música, um rap e um rock, ambos brasileiros, para você adivinhar qual é qual. Preparado?

1 – “Eu mudei por você. Mas não quis sofrer. Por ser tão real pra mim, vou. Aprendo a viver. E num segundo perder. O medo de ser quem eu sou.”

2 – “Jesus perdoou demais, morreu. Lampião confiou demais, morreu. Sou tipo um general que lidera uma tropa vinda do breu. Não confio, nem perdoo, por isso mandaram eu!” Resposta correta: a letra inteligente é a do rap.

Não é à toa que, representado principalmente por Emicida e Criolo, o rap foi o grande destaque da música brasileira no ano passado: as nossas novas bandas de rock são de uma mesmice inacreditável. Quando não são indies tatuados que se escondem atrás de pedais de guitarra cantando em inglês (para se esconder mais ainda), são entusiastas da “cornice” rimada no infinitivo, sem originalidade nem para se batizar.

De duas uma: ou as bandas usam números e letras no nome – como CPM 22, NX Zero, CW7 e Hevo84 – ou a inspiração vem do computador – e aí dá-lhe Caps Lock, In Box e Restart… Dois sacos da mesma farinha.

Essa falta de criatividade que começa pelo nome poderia ser facilmente estendida até a gringa, a moda por lá agora é o “the” no meio, estrelando Cage the Elephant, We the Kings, Young the Giant. Mas esqueçamos a gringa, até porque o marasmo já é bem grande por aqui, onde o rap assumiu o lugar do rock, que assumiu o lugar do sertanejo radiofônico, que foi para Portugal de navio.

Sim, é isso mesmo: o rap é o novo rock! Lembra que as bandas brasileiras de rock eram originais, divertidas, inovadoras, contestadoras e sedutoras? Bem, talvez você não se lembre, afinal, muito ironicamente, Titãs, Barão Vermelho, Kid Abelha, Paralamas e Legião Urbana completaram – ou estão completando – três décadas neste ano.

Fato é que inovação, originalidade, diversão e contestação agora são atributos do rap. O gênero saiu das quebradas, ganhou jogo de cintura, bom humor e simpatia e faturou até as premiações, mas sem perder a dignidade ou fazer concessões, vide o primeiro Lollapalooza Brasil. Quem encerrou o festival? Arctic Monkeys? No folheto da programação, sim. Na prática, não!

O evento foi todo pontual, cronometradinho, mas o Racionais MC’s subiu ao palco mais de meia hora atrasado. E desceu dele 12 minutos depois de a banda do Alex Turner ter se despedido. Como se não fosse o suficiente, os rappers foram os únicos que não liberaram a transmissão do show pela televisão – simplesmente porque não! O que pode ser mais rock and roll do que isso?

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