Mais caras novas: o pop rock nacional se debate e pode voltar a 'incomodar'

Estadão

23 de outubro de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

O renascimento é lento, e cada vez mais pelas beiradas. O pop rock nacional underground tenta furar a barreira da falta de shows e de apoio na raça e com recursos próprios, e sabe que dificilmente haverá um retorno ao menos no médio prazo. “Não tem importância. Nós temos alguma dizer e continuaremos a fazer música sem parar”, disse recentemente Pepe Bueno, baixista da banda Tomada, uma das melhores bandas nacionais e que acaba de lançar um ótimo DVD que mistura documentário com apresentações ao vivo. O Tomada é uma prova que a persistência dá resultados, ainda que demorados.

E é exatamente esse o tema de uma música bem legal de uma banda não tão nova, mas que segue surpreendendo. “Enquanto a música tocar/Ainda é Tempo para tentar/Por isso ouça meu amigo/Nem sempre é fácil encontrar/ Mas se o rock é infinito/Só ´[e preciso continuar”, da canta a animada Carol Arantes em “Um Pouco Mais Desse Infinito”, que intitula o EP da banda paulistana Klatu.

Klatu

Levando mais à frente a proposta do trio paulista O Terno, o Klatu aposta em guitarras e solos bem elaborados, apesar de os arranjos serem bem simples. São sete músicas que mostram vigor e e inquietação, com letras bem humoradas e belos trabalhos de guitarra. Algumas faixas remetem a uma linha seguida pelo Tomada e pelo Pedra, um rock setentista mais inglês, puxado para o hard rock e até mesmo para o progressivo. As referências são várias: Mutantes, Rita Lee, The Who, Humble Pie, The Faces, Bedlam, Yardbirds, Slade, um pouquinho de Uriah Heep do comecinho (especialmente na música “Na Cidade”)…

O Klatu é interessante em meio ao marasmo comercialóide do mainstream nacional porque é despretensioso e despojado. Sem firulas e cabecismos, brinca com as sonoridades e evita parecer sério. Agrada como um som de festa e bem animado para encontros de amigos de bom gosto em um sábado à tarde regado a bastante cerveja. Pena que Carol Arantes, a cantora, opte mais pela linha de Rita Lee do que Janis Joplin. O som da banda requer um pouco mais agressividade e energia nos vocais.

Ruído Fino

Em um patamar diferente, aparece o também surpreendente Ruído Fino, de Araraquara (SP). Sofisticado, bem arranjado e mais intenso, o grupo transita em uma área perigosa, aderindo a uma sonoridade diferenciada dos anos 80, lembrando de leve gente boa como Rumo, Smack, Skowa e a Máfia, Zero e outros tão notórios. A mistura bem dosada de funk, soul, MPB e rock, que poderia descambar para o barulho do funkeiro doido, acaba sendo a maior virtude do grupo.

Ao contrário de Carol Arantes, a cantora Fabíola Ognibeni fica a meio caminho da passionalidade intensa. Sua voz dialoga perfeitamente com as bases de metais bem arranjadas e, em alguns momentos, duela com a guitarra de Gilmar Faustino Júnior. É como se Ed Motta deixasse o palco temporariamente para que Fabíola conduzisse a ótima Conexão Japeri.

Mesmo com o instrumental afiado e entrosado, o fio condutor é mesmo a voz cheia de personalidade da cantora, que em alguns momentos lembra a teatral, potente e bluseira Fernanda D’Umbra, da Fábrica de Animais.

As duas, aliás, são uma boa resposta funk-roqueira para a profusão de cantoras da MPB de vozes pequenas e pretensões enormes. São cantoras de rock em sua essência, com a força de quem canta em boteco, embora note-se aqui e ali uma pequena aspiração de Fabíola Ognibeni em eventualmente se tornar uma diva da MPB – ainda bem que isso parece ser passageiro. Os destaques do CD “Ruído Fino” são “Contramão”, “Meu Violão” e “Meu Par”.

Soulstripper

De Piracicaba (SP) aparece o Soulstripper, que procura se diferenciar com um instrumental roqueiro mais ácido e nervoso, embora não caia no rock mais pesado – o nome, que remete a uma canção antiga do AC/DC, ajuda a manter certa confusão. Há um certo ar de despojamento nas composições, mas é apenas  aparente o estilo largado. As letras são um pouco mais bem elaboradas do que a média, com brincadeiras e jogos de palavras curiosos, como a insana “Fabiana Isabela Ana”.

O grupo ganhou notoriedade com o CD “As garotas e todos os problemas que vêm com elas”, lançado gratuitamente em 2009 com 12 faixas que falam sobre desilusões amorosas de maneira engraçada e deliberadamente ingênua. “É rock’n’roll de menino para menina. Falamos de relacionamento misturando a cafajestice com fofura. Não é de maneira poética”, diz Bruno Fontes meio na galhofa, em em entrevista ao portal G1. A faixa “Não trocaria um sorvete de flocos por você” tornou-se, ainda que de forma efêmera, um sucesso por meio de seu hilário e barato videoclipe disponibilizado na internet.

O paulistano Aletrix investiu em uma salada proposital para empastelas as tentativas de rótulos em seu recém-lançado “Herpes aos Hipsters”. Ora é um som retrô oitentista recheado de referências ao rock inglês e à new wave norte-americana, ora surge um autêntico rock pesadinho grunge, entremeados com o mais puro rock nacional dos anos 80.

Em um primeiro momento, as letras podem remeter às piadas e insanidades do indomável carioca Rogério Skylab, mas o músico paulistano não avança tanto. Difícil não lembrar as experiências sonoras e as gaiatices encantadoras dos Titãs em seus primeiros dois discos. “Eros X Tânatos” é Nirvana puro. “Caixa Vazia” parece saída de um disco do Ira! anterior a 1986, com seus ecos de The Who e Small Faces.

Gravado e produzido no estúdio Sonata 84, a casa do trio Dr. Sin, o álbum de Aletrix deixa claro o cuidado com os timbres de guitarra, que conduz todo o trabalho com certa elegância.

O músico corre o risco de ter seu trabalho equivocadamente marcado como um rock indie alegrinho e alternativo? Sim, mas o ouvinte mais atento vai perceber algo mais do que uma porção de roquinhos alegrinhos.

Sem descambar para a vulgaridade ou mesmo a obviedade, Aletrix constrói um punhado de músicas com boas referências e temas do cotidiano bem sacados, com alfinetadas bem humoradas à vidinha da classe média e às tentativas vãs dos moderninhos de serem cada vez mais moderninhos e alternativos. Dá sorrir ao escutar “Ele é Mais Qualificado” e na faixa-título. As perspectivas de Aletrix são bem interessantes.

As Radioativas

O quinteto feminino As Radioativas, de São Paulo, incorpora o espírito anárquico e pesado de bandas como The Donnas e a até mesmo Runaways, sendo que nacionalmente a referência pode ser o Made in Brazil, em especial no hit “Isto É Rock’n’Roll”. É rock básico, variando na velocidade – indo do rockabilly tosco ao punk em segundos, sem frescuras.

A proposta é mais radical que a do Klatu. Apadrinhada e produzida pela lenda Luiz Calanca, da Baratos Afins – que produziu gente como Arnaldo Baptista (Mutantes) e Golpe de Estado, entre outros -, as meninas não economizam na energia. A simplicidade domina o seu mais recente trabalho, “Cuidado Garota”, e é justamente essa a maior virtude da banda: quer fazer músicas para divertir e agitar, sem maiores arroubos de sofisticação. E falta isso no pop rock nacional: mais diversão e um pouco mais de sacanagem  no sentido de pilhéria, mesmo fugindo de padrões estéticos de beleza estabelecidos. As meninas estão se dando bem nestes quesitos.

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