Mago do blues e gênio do rock, Gary Moore morre na Espanha

Estadão

08 de fevereiro de 2011 | 08h36

Marcelo Moreira

Gary Moore sempre foi uma pessoa extrema. Energético, mandão, briguento e birrento, mas gênio da guitarra e dono de um timbre único, tinha tantos amigos na música quanto desafetos. Entretanto, hoje todos estão tristes, até mesmo quem não gostava dele, como o baterista Ginger Baker (ex-Cream). Moore, irlandês de Belfast, morreu aos 58 anos no dia 6 de fevereiro em Málaga, na Espanha, local onde passava férias com a namorada.

Segundo o Hot Press, um dos mais importantes do mundo das celebridades, o guitarrista tinha bebido muito na noite anterior e foi encontrado inconsciente pela namorada de madrugada, quando dormia de bruços. As primeiras informações da polícia espanhola indicam que Moore tenha morrido sufocado pelo próprio vômito, assim como o ídolo Jimi Hendrix e também o gênio da bateria Keith Moon.

Lenda blueseira de Belfast, na Irlanda do Norte, enclave britânico na ilha – cidade então conhecida no rock somente como berço do Them, de Van Morrison -, Gary Moore tocou em vários grupos locais a partir de 1967, com apenas 15 anos. O domínio absoluto da guitarra e seus timbres limpos e pesados encantavam as plateias dos pubs.

Ao lado do parceiro Phil Lynnot nos anos 80

Já era genioso e irascível, mas assim mesmo era admirado (e tolerado) pelos amigos, entre eles os futuros Thin Lizzy Phil Lynnot (baixo e vocal, morto em 1986), Eric Bell (guitarra) e Brian Downey (bateria). Por breves períodos integrou o Lizzy nos anos 70, mais como quebra-galho para ajudar Lynnot – chegou a tocar em boa parte do álbum “Black Rose”, de 1979.

Sua primeira incursão realmente profissional e séria foi no Skid Row, trio que formou com amigos em 1969 em Dublin, na República da Irlanda. Lynnot foi vocalista por pouco tempo até ralmente se firmar com Thin Lizzy.

 Cantando e tocando guitarra, tendo com os colegas  Brush Shiels no baixo e Nollaig Bridgeman na bateria, lançou com o Skid Row dois álbuns de pouca repercussão fora da Irlanda (“Skid Row” e “34 Hours”), o que levou ao fim do grupo – que teve o nome vendido nos anos 80 para banda de Sebastian Bach e Rachel Bolan.

Em 1973 montou a também pouco conhecida Gary Moore Band, embora sua reputação começasse a crescer na Inglaterra e na França, numa época de forte concorrência na área do blues-rock, que tinha gente como Rory Gallagher, Robin Trower e a Beck, Bogert and Appice, de Jeff Beck. Paralelamente à carreira solo, integrou o projeto progressio Colosseum II, de John Hiseman, one ficou de 1975 a 1977, e também colaborava com o Thin Lizzy. 

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Nos anos 80 abraçou com gosto o hard rock e criou o G-Force, que teve pouca duração. Retomou a carreira solo e a parceria com Lynnot, com quem brigava muito, mas adorava como a um irmão. O single de sucesso de Moore, ‘Parisienne Walkways’, de 1979, composto pelos dois, teve ótimo desempenho nas paradas inglesas daquele ano, assim como ‘Out in The Fields’, de 1985.

Depois de parcerias com Ozzy Osbourne, Glenn Hughes, Ian Paice (Deep Purple) e Greg Lake (Emerson, Lake and Palmer), lançou seu melhor trabalho pesado, “After the War”, em 1987, para depois mergulhar de cabça dois anos depois no blues puro, na esteira do megahit “Stilll Got the Blues”.

Mesmo enquanto fazia blues de raiz, voltou ao rock quando substituiu ás pressas Eric Clapton no que deveria ser o retorno do Cream após 25 anos de paralisação. O Cream se reuniu à época para tocar três músicas na cerimônia do Rock’n Roll Hall of Fame de 1993, e Clapton sinalizou que toparia conversar sobre o retorno definitivo do grupo após o evento.

Empresários e os outros integrantes – Ginger Baker (bateria) e Jack Bruce (baixo e vocal) se precipitaram e armaram um circo, com turnê e gravação de álbum, mas tiveram de engolir um não do guitarrista. A solução imediata foi chamar Gary Moore, conhecido dos dois músicos e empresariado pelo mesmo grupo. “Around the Next Dream” foi o único lançamento do BBM (Baker, Bruce and Moore) e gerou um desentendimento entre Baker e Moore – “Esse cara precisa de um psiquiatra”, disse certa vez o bateria a respeito da a rabujice e da esquisitice do irlandês.

 Nos últimos anos, ele tinha retornado às suas raízes blueseiras, após duas incursões malsucedidasnos anos 90 pela música eletrônica como base para seus blues chorado – crime cometido também por Clapton em “Pilgrim”.  Ao todo, ele lançou 20 discos de estúdio, assim como seis compilações ao vivo, incluindo o DVD “Live At Montreux”, caixa memorável com cinco shows. Vai fazer muita falta.