Magic Slim, a força dos três acordes

Estadão

11 de setembro de 2011 | 11h10

Gabriel Vituri – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

Em meados da década de 40, no pequeno vilarejo de Torrence, no Mississippi, entre muitas plantações e poucas ruas, Morris Holt, um garoto negro nascido em agosto de 1937, dividia seu tempo entre o árduo trabalho na lavoura e a música – no coral da igreja e à frente do piano. E então, quando manuseava um descaroçador de algodão, Holt teve o quinto dedo da mão direita prensado e decepado por uma das moendas de sua ferramenta. Estava traçado o destino.

“Depois do acidente, como não poderia mais continuar no piano, comecei a tocar guitarra”, conta o bluesman. Aos 74 anos, Magic Slim é uma das últimas lendas vivas do Chicago Blues, definição para a música crua, elétrica e sem rebuscamentos desenvolvida por mestres como Muddy Waters e Howlin’ Wolf.

Na quinta-feira, 15, o guitarrista estará no Brasil mais uma vez, para apresentação única no Bourbon Street, em São Paulo. A rápida passagem pela América Latina inclui também um show no sábado que vem, durante o 14º Festival Internacional de Jazz de Assunção, no Paraguai.

Se hoje ele tem o luxo de se revezar entre uma Fender Jazzmaster e uma Gibson Les Paul, é porque muita pedra já rolou. Quando perdeu o mindinho e se conformou de que precisaria desenvolver suas habilidades em outro instrumento, com dez anos sequer completados, Morris Holt tratou logo de agilizar o processo: com cerdas de uma vassoura da casa, improvisou o que entendia ser uma guitarra “boa, muito boa”, ele garante.

Grenada, para onde foi pouco depois, não era muito maior que sua terra natal. Não fez diferença, no entanto, quantas lojas havia ou quantas pessoas lá viviam. Já a camaradagem que construiu com um músico que encontrou na nova cidade, sim.

Samuel Gene Maghett, ou Magic Sam para os íntimos, deu ao pupilo o privilégio de carregar consigo o título de mágico e um ensinamento precioso. “Sam me mostrou muito, mas, principalmente, me disse para que criasse um jeito próprio de tocar. E foi o que fiz”, afirma Slim, que cadencia cuidadosamente cada nota de sua guitarra entre um verso e outro, embalados pela voz característica dos blueseiros negros do Mississippi.

Foi na companhia do parceiro que Magic Slim aportou em Chicago, em 1955. Depois de assumir a função de baixista na banda de Magic Sam por um curto período, inseguro com a qualidade de sua música, o jovem Morris Holt voltou para casa, deu a dois de seus irmãos baixo e bateria e formou o trio que seria batizado como Teardrops.

Mais habilidosos, os três rumaram novamente à cidade do blues e aos poucos foram ocupando os espaços – bares, cabarés e casas de show – que lhes eram devidos. A banda, hoje em dia com uma guitarra a mais, passou por diferentes formações e já não conta com os integrantes da família Holt.

Atualmente, Magic Slim mora em Lincoln, Nebraska. Mas vive pelo mundo. Junto com Buddy Guy e BB King, o guitarrista de 74 anos é um dos representantes da velha guarda que não abandonou a estrada – e não pretende fazê-lo.

Em 1989, veio ao Brasil pela primeira vez, para o I Festival Internacional de Blues, realizado em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. De lá pra cá, ele já voltou ao País em várias outras ocasiões, incluindo o lançamento do DVD da banda Blue Jeans, em 2007.

“Magic não tem grandes exigências, só quer sentir a música, feel the blues”, conta Marcos Ottaviano, ex-guitarrista da Blue Jeans, uma das grandes expoentes nacionais do gênero nos anos 90 e 2000. “Ele manteve suas origens, com um som bem tradicional, guardando as raízes”, completa o músico brasileiro.

Com mais de trinta discos gravados, Magic Slim tem boa parte da sua produção dividida entre os selos Wolf Records e Blind Pig Records, este último com quem o músico grava desde 1990. Seu último trabalho, Raising the Bar, foi lançado no ano passado e segue à risca o que o mágico propõe: composições novas e antigas, interpretadas com o mesmo vigor daquele blues visceral da Chicago dos anos 50.

Os shows que acontecem na semana que vem em São Paulo e em Assunção serão bem acompanhados pela Teardrops. Sem rodeios, Magic Slim manda um recado: “Estou chegando. Estejam preparados.”

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