Los Hermanos voltam para decretar a 'guetificação' do pop rock

Estadão

03 de janeiro de 2012 | 06h38

Marcelo Moreira

Quando a banda carioca Los Hermanos começou a chamar a atenção de parte da imprensa musical, na segunda metade da década de 90, o rock brasileiro vivia um momento bastante interessante, quase tão efervescente quando a cena da década anterior.

Raimundos estavam no auge, havia o Skank ocupando o lugar pop que havia sido ocupado pelos Paralamas do Sucesso e o mangue beat, em que pese a pobreza musical e lírica, ainda tinha alguma lenha para queimar – e muitas outras bandas disputavam espaço mostrando competência, embora sem originalidade.

Aí aparece um grupelho de classe média e egresso da universidade mesclando um suposto hardcore com letras no mínimo diferentes e um forte acento pop com parentesco com a MPB. Los Hermanos realmente tinham algo de diferente.

Mais de dez anos depois e um hiato de quatro anos, o quarteto carioca anuncia que retornará aos shows neste 2012, embora seus integrantes descartem, pelos menos por enquanto, um novo álbum.

Será mesmo que precisamos da volta do Los Hermanos e de sua pretensão artística? Será que ainda é relevante fazer uma turnê de lembranças, só para tocar algum punhado de hits embolorados e faturar alguns trocados – exatamente como fazem vários dinossauros do rock tão criticados por “críticos musicais antenados e modernosos”?

É claro que a banda tem o direito de fazer como milhares de tantas outras fizeram. Aliás, a volta era até prevista, já que eles nunca dissolveram oficialmente o grupo. Quando se separaram, apenas disseram que não tinham data para voltar.

O fato é que o Los Hermanos embicou muito cedo, esbarrou nas suas evidentes limitações artísticas e musicais, inversamente proporcionais à pretensão e certa arrogância demonstradas desde que começaram a fazer sucesso com a insossa “Anna Júlia”.

De um roquinho supostamente alegre e levemente acelerado passaram a se mover cada vez mais em direção à MPB e ao samba carioca, com certas aspirações “literárias” em relação aos temas e letras. Claramente o foco desapareceu, assim como a (pouca) inspiração.

Fora da banda, o panorama não foi dos melhores. Marcelo Camelo, vocalista e guitarrista e que é um dos líderes, achou que já era hora de engatar uma carreira solo. Cometeu dois álbuns que passaram quase despercebidos e decidiu se tornar curador-produtor-mentor -anjo da guarda da então namorada adolescente, Mallu Magalhães, que surgiu do nada na internet para se tornar musa “alternativa” sustentada por músicas infantis e ruins.

Rodrigo Amarante, o outro vocalista-guitarrista que divida a liderança dos Los Hermanos, foi menos pretensioso. Fez amizade com o baterista dos Strokes, o brasileiro Fabrizio Moretti, e os dois criaram um trio com a cantora norte-americana Binki Shapiro, o Little Joy.

O CD único até agora foi um fiasco, foi mais festejado pela imprensa do que pelo público e, aparentemente, está sepultado. Amarante acabou sendo mais produtivo ao se associar à Orquestra Imperial, um combo de samba e MPB respeitado no Rio de Janeiro por resgatar as tradições musicais da cidade.

Portanto, não é nada animador o cenário para que O Los Hermanos regresse. O pop rock nacional sumiu das paradas e das emissoras de rádios, soterrado por toneladas de porcarias de todos os calibres, do pagode asqueroso ao sertanejo universitário espúrio, da pior espécie, passando pelo funk inominável.

Ficará o quarteto carioca restrito a um gueto que restringe a cada dia de apreciadores de um moribundo pop cabeçudo pretensioso e totalmente anacrônico na segunda década do século XXI? Provavelmente. Para nossa sorte, talvez…

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