Los Hermanos: entre o pedantismo e a quase irrelevância

Estadão

02 de maio de 2011 | 08h15

Marcelo Moreira

Assim como a Legião Urbana, a banda carioca Los Hermanos sempre mereceu um tratamento diferenciado e laudatório por grande parte da imprensa especializada. Algum desavisado ou mesmo desinformado cometeu o disparate de dizer que a banda dos barbudinhos tinha o mesmo peso da Legião para os fãs dos anos 2000.  E muita gente acreditou nisso.

Los Hermanos acabou, mas vive ameaçando voltar e nos aterrorizar com “Anna Júlia”. De vez em vez a banda se reúne para shows esporádicos. Mas seus integrantes nçao nos deixam em paz. Rodrigo Amarante decidiu formar o Little Joy com o baterista do intragável Strokes e uma cantora americana ruim.

Marcelo Camelo se travestiu de bardo e já lançou dois CDs solo misturando a melancolia chatíssima de seu pop insosso com o pior da MPB cafona. Parece que é impossível para os ex-integrantes da banda se livrarem da síndrome de Renato Russo.

Não bastasse o pop rock ruim,as letras pseudoromânticas de gosto duvidoso e os “cabecismos” quase indecifráveis de algumas músicas, ainda temos de aguentar a pose de intelectuais de tais músicos, como se pode perceber na inacreditável entrevista de Camelo à Rolling Stone Brasil de abril (com Ronaldinho Gaúcho na capa).

O cantor desfila uma série de citações cabeçudas para mostrar sapiência e intelectualidade, e posa de intelectual incompreendido e sensível, “em busca da arte perfeita e do som puro”, seja lá o que isso for.

Apesar da qualidade sofrível do pop rock do Los Hermanos, tanto Camelo e Amarante eram músicos diferenciados quando davam entrevistas. Nem um pouco deslumbrados quando estouraram com a indefectível “Anna Júlia”, falavam com segurança e desprendimento aos jornalistas, mostrando que tinham referências, que tinham algum conteúdo, fugindo da terra arrasada que era a seara intelctual do rock brasileiro no final dos anos 90 e começo dos anos 2000.

Enfim, mostravam-se artistas diferentes, com ideias e coisas interessantes para falar, mes mo que o primeiro CD não fosse lá essas coisas, para ser generoso. O sucesso fez mal aos garotos que queriam ser emos antes mesmo do surgimento destes.

As misturebas de pop rock com MPB e samba confundiram os fãs e não levaram a banda a lugar algum. Apesar disso, o tom das entrevistas mudou, com a complacência de parte expressiva da imprensa embasbacada. O pseudointelectualismo começou a dominar as conversas, e os integrantes da banda realmente acharam que estavam fazendo um trabalho musical revolucionário, quando na verdade era o contrário.

A implosão do grupo não foi suficiente para amenizar os discursos fora de contexto e de ordem, em um momento em que se valoriza cada vez mais a simplicidade.

Não escutei o último trabalho de Marcelo Camelo, “Toque Dela”, e não pretendo escutar, pois não tenho interesse no gênero muscial praticado por ele. O que já escutei de Los Hermanos na vida foi o suficiente para me afastar de qualquer trabalho de seus integrantes.

Mas é chato constatar hoje que as entrevistas de artistas que ao menos tinham alguma coisa a dizer no passado hoje nada mais são do que reflexos diretos do pedantismo que dominou parte expressiva dos trabalhos dos Los Hermanos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.