Líder do Of Montreal fala sobre seu pop excêntrico

Estadão

08 de junho de 2012 | 07h00

Roberto Nascimento – O Estado de S.Paulo

 Kevin Barnes, já gravou 11 discos com o Of Montreal - Divulgação

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Kevin Barnes, já gravou 11 discos com o Of Montreal

Supõe-se que há 15 anos Kevin Barnes tomou alguma coisa e não parou mais. Um choque talvez, ou um energético porreta que ainda não deixou seu cérebro descansar. Desde então, são 11 discos com sua banda, Of Montreal, turnês incessantes, colaborações, shows vibrantes, como o que fez em São Paulo, no Planeta Terra, em 2010, e um legado de dance rock idiossincrático, que flerta com soul e erudito ao mesmo tempo, e prima por uma estética doidivanas, de poesia absurda e melodias cafeinadas. 

Vide um de seus hits, como Gronlandic Edit, do ótimo disco Hissing Fauna, Are You The Destroyer?, de 2007. Trata-se de dance punk na veia da gravadora DFA com peculiaridades de rock progressivo: uma pulsação seca e um arranjo vocal quase operístico, que não estaria fora de lugar em disco do Queen. 

Nos últimos oito anos, suas excentricidades têm sido amplificadas. O processo criativo do Of Montreal foi monopolizado (Barnes grava e toca todos os instrumentos), e as letras cada vez menos preocupadas com coerência. Barnes também envereda com nitidez pelo soul. Colabora frequentemente com Solange Knowles, irmã de Beyoncé e Janelle Monáe, que é sua vizinha (apesar do nome, Of Montreal é de Athens, na Georgia, não muito longe de Atlanta, onde Janelle comanda sua Wondaland Arts Collective). 

Essa narrativa deságua em Paralytic Stalks, o último do Of Montreal, lançado no Brasil pela Deckdisc. O disco mescla música erudita do século 20, com os delírios pop de sempre. Barnes, que vem a São Paulo com o Of Montreal para tocar no Cine Joia, no dia 26 de junho, falou ao Estado sobre suas influências e sua prolífica carreira. 

False Priest e Paralytic Stalks, seus últimos discos, têm uma pegada soul bem nítida. Foram referências conscientes no processo de composição? 

Sim. Muito funk, muito soul e muita música de vanguarda do século 20. Eu também me inspirei bastante na forma de escrever de Henry Miller e William Burroughs. 

De que modo?

Adoro o estilo direto e pessoal desses caras. Queria fazer algo parecido. Um realismo desagradável. Burroughs é tão livre dentro de seu estilo. Seu cérebro parece ter sido exposto a uma explosão endoidecida de imaginação, automática e hipnótica. Eu não me preocupo muito em fazer sentido. Apenas escrevo em um estado de consciência orgânico, não edito ou penso duas vezes no que surge em minha mente, apenas deixo isso acontecer. 

Mas em algum momento você deve ter que sintetizar esse fluxo em uma canção. Como faz isso?

Escrevo as letras separadamente. Quando a estrutura de uma canção está pronta, volto às minhas anotações para ver se há alguma letra que funcione no contexto da canção. 

O figurino das turnês do Of Montreal é conhecido por sua criatividade. Quando grava, já pensa no conceito visual? 

Não, porque cada álbum é algo extremamente pessoal e quem toma conta do visual é o meu irmão, Dave. Quando termino, entrego para ele, e ele resolve o aspecto teatral e o figurino da banda. 

Você sempre gravou e compôs sozinho? 

No começo não era assim. Não tinha muitos amigos, então os caras com quem fazia música estavam sempre lá. Desenvolvemos uma espécie de rotina para termos ideias, por necessidade. Mas as coisas foram mudando. Hoje em dia, acho gratificante criar sozinho. Peço para as pessoas contribuírem com ideias, mas gosto de ficar completamente imerso no processo. Outras pessoas são outros egos, e outros egos têm opiniões diferentes sobre o caminho a ser trilhado. Isso pode ser frustrante. Alguém tem de ser o capitão do navio. 

E como isso funcionou em Paralytic Stalks

Escrevi o grosso e depois convidei pessoas para contribuírem com detalhes. Deixei que elas pirassem e fizessem o que quisessem. Convidei uns músicos eruditos, que acabaram se juntando à banda. 

Foi daí que saíram as influências de erudito? 

Estava me interessando cada vez mais por música erudita do século 20, Penderecki, Yves, etc. Isso foi na época em que fazia o último disco, False Priest. Então, meu violinista Keshi Bashi me apresentou algumas coisas e nós dois tentamos encontrar uma forma de combinar estas ideias com a coisa funkeada que estávamos fazendo. 

OF MONTREAL

Paralytic Stalks 

Deckdisc – R$ 24 

PARCERIAS:

Janelle Monáe

O músico contribuiu com psicodelia no elogiado disco de Janelle, The ArchAndroid, de 2010. A cantora, que tem seu QG em Atlanta, próximo de onde Barnes reside, por sua vez cantou False Priest, do Of Montreal.

 

Solange Knowles

A irmã de Beyoncé deixou todos curiosos quando disse que colaboraria com Barnes (indie e pop são coisas distantes para alguns), mas contribui para uma das melhores de False Priest

Cine Joia. Pr. Carlos Gomes, 82; 3231-3705. Dia 26/6, 23 h. R$ 90/ R$ 180. 

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