Legião Urbana: um tributo de fã para fãs

Estadão

31 Maio 2012 | 10h30

ADRIANA DEL RÉ

Enquanto Wagner Moura e os remanescentes da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, se apresentavam anteontem no palco do Espaço das Américas, em São Paulo – e também no ar, ao vivo, pela MTV –, as redes sociais viraram palanque de debate sobre a validade do projeto em tributo à Legião e, mais do que isso, de comparações entre Wagner e Renato Russo (1960-1996), vocalista e fundador da banda.

Não raro, comentários mal-humorados lamentavam o fato de o ator de não estar à altura de Renato. E o assunto permaneceu ontem entre os mais comentados no Twitter. Oras bolas, e quem disse que Wagner estava lá com a pretensão de substituir alguém, ainda mais tendo plena consciência de que esse mesmo alguém é idolatrado como a um deus pelos fãs?

Isso conduz automaticamente a outra pergunta: quem, então, seria o artista habilitado para cumprir esse papel? Ou homenagens são vetadas quando envolvem o repertório da Legião e seus próprios ex-integrantes? Até Dinho Ouro Preto, que tem uma relação muito próxima com a banda, desde os tempos de Aborto Elétrico (e cuja cisão levou à formação da Legião e do Capital Inicial), não escaparia ileso das críticas.

Deixando de lado as bocejantes ladainhas desabonadoras, vamos aos fatos. Sem Wagner, o projeto não teria saído do papel. Ok, a MTV queria o ator em um projeto seu, mas sem o aval da família de Renato (que aprovou a escolha), e de Dado e Bonfá, que se contagiaram com a entusiasmo de Wagner, tudo não teria passado de um desejo. E por que tirar dos menos xiitas o direito de ouvir as músicas da banda ao vivo e, melhor ainda, na formação (quase) original?

Wagner teve um ato corajoso ao encarar o desafio, sabendo que receberia mais cacetadas do que louros. É bem verdade que ele não é um cantor profissional, e, sim, um ator que gosta de dar seus pulos como intérprete – vide a própria banda que montou, a Sua Mãe, e a palhinha que deu nos filmes Vips e O Homem do Futuro, nos quais canta justamente Legião. Mas isso não era segredo para ninguém.

No primeiro show do projeto, que dará origem a CD e DVD (houve outro show ontem), ele foi prejudicado por problemas no microfone, que fizeram seu canto sumir, principalmente no início da apresentação. Mas superou qualquer falha técnica ou vocal ao assumir o espírito legionário de ser. Se descabelou, se jogou no público e dançou freneticamente, fazendo lembrar os trejeitos de Renato no palco.

A plateia, com cerca de 7 mil pessoas, entrou no clima. O repertório começou e terminou bem, com os hinos Tempo Perdido e Será. No recheio, vieram outros hits como Pais e Filhos e Geração Coca-Cola. E o mais bacana é que Bonfá e Dado não foram meros coadjuvantes.

Da bateria, Bonfá voltou a cantar Teatro dos Vampiros, como já havia feito, no ano passado, no Rock in Rio. Dado também mostrou cantar bem, coisa que ele vem fazendo há tempos, em sua carreira solo. Outra boa da noite foi a participação do guitarrista inglês Andy Gill, da Gang of Four, em Damage Goods, reforçando a influência punk nas origens da Legião.

O tributo à banda foi uma apresentação de altos e baixos, técnicos e de repertório, que encontrou seu ponto de equilíbrio na incansável empolgação do público – e de Wagner Moura.

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