Kiss se supera, Aerosmith fica no conforto e ZZ Top parte para a ousadia

Estadão

12 de novembro de 2012 | 06h54

Marcelo Moreira

 Três gigantes do rock ressuscitaram em 2012, cada um optando por caminhos próprios e distintos, sendo que um deles não foi tão feliz, não chegando propriamente a pisar na bola. Kiss, Aerosmith e ZZ Top não conseguem lançar álbuns ruins, mantêm a qualidade adquirida em mais de 40 anos de carreira, mas é possível identificar ousadia e inteligência em seus novos trabalhos – e também a mera acomodação.

Kiss e Aerosmith são conterrâneos e contemporâneos. Ambos estrearam em LP em 1973, com resultados discretos. As coincidências a partir de então são muitas, a começar pelo sucesso que obtiveram a partir do segundo álbum, pelo período estrondoso de exposição que tiveram entre 1975 e 1978 e com o início de perda de prestígio em 1979.

Trinta e nove anos depois da estreia, ambas soltam novos trabalhos após hiatos que incomodaram os leitores. “Monter” é o lançamento do Kiss após três anos de “Sonic Boom”. O Aerosmith chega com “Music of Another Dimension” nove anos após “Just Push Play”, de 2002, o último de inéditas – “Honkin’ on Bobo”, de 2004, era uma coleção de versões de clássicos do blues.

O álbum do Aerosmith não é ruim, longe disso, mas ficou na zona de conforto da fórmula encontrada nos anos 90, quando o Aerosmith retornou ao auge e vendia bastante. Uma profusão de baladas, produção esmerada mas às vezes excessiva, rocks vigorosos mas sempre remetendo a trabalhos como “Get a Grip” e “Nine Lives”.

 

O cartão de visitas até que era auspicioso, com a ótima “Legendary Child”, um legítimo hard rock dos anos 90, com pegada e bem moderno. O mesmo pode se dizer de “Luv XXX”, que mantém o peso e a energia, e a sequência com “Oh Yeah”, que remete aos bons tempos da segunda metade dos anos 70, assim como em “Freedom Fighter”, rockão de arena cantado pelo guitarrista Joe Perry. O pique não se mantém, infelizmente, mas é um álbum bastante agradável de se ouvir – desde que não haja maiores exigências.

 O Kiss, por sua vez, mudou o perfil em “Monster”, algo que já vinha sendo ensaiado em “Sonic Boom”. Nada de baladas, mas um hard rock direto e sem firulas, com menos produção e mais vigor. “Hell or Hallellujah”, a primeira música a ser divulgada, deu o tom do álbum, e deixa o ouvinte quase sem fôlego com a sequência “Wall of Sound”, “Freak” e “Back to the Stone Age”.

“Monster” é apenas o terceiro álbum do Kiss em 14 anos. Previsto para ser lançado ainda em outubro, representa um sopro de esperança para uma banda prestes a completar 40 anos de existência. Os exageros característicos dos farofentos anos 80, que ainda estavam presentes em “Sonic Boom”, só que em escala bem menor, foram substituídos por uma bem-vinda simplicidade.

Finalmente o quarteto admitiu: para surpreender os fãs, não era preciso inventar, nem mesmo se reinventar. Bastava olhar para a vizinhança, detectar a mesmice e a falta de ideias, e depois olhar para um passado remoto. Adicione timbres mais modernos de guitarra e está feito um interessante álbum de hard rock.

A opção de deixar o climão setentista dominar “Monster” foi uma decisão acertada. Nem o mais fervoroso fã imaginaria que Gene Simmons (baixo e vocais) e Paul Stanley (guitarra e vocais) se interessariam novamente por uma sonoridade que remete, ainda que parcialmente, aos clássicos “Destroyer”, “Rock’n’Roll Over” e “Love Gun”, gravados entre 1976 e 1977.

Sumiram todos os indícios de obrigatoriedade de gravar algo novo. Pode até ser uma coisa fingida, mas as músicas novas transbordam um astral positivo e mais alegre, são cativantes e, despidas de arranjos pomposos e desnecessários, levam ao Kiss de volta ao terreno do rock’n’roll básico e sem muitas firulas.

Não há nada de memorável em “Monster”. A inspiração foi a sonoridade dos clássicos setentistas da banda – repito, uma decisão acertada –, com resultado positivo e interessante, mas apenas isso.

Assim como em “Sonic Boom”, não há um grande hit, nenhuma música com potencial para se tornar um clássico da banda. No entanto, como um todo, o novo álbum é mais coeso e melhor do que o anterior. A coleção de músicas tem mais qualidade – tocar e gravar com vontade, com bom astral, faz toda a diferença.

Já o ZZ Top foi mais ousado e se deu bem. O som do trio texano não teve grande mudança, mas é nítida a intenção de modernizar o boogie safado que tanto caracterizou o grupo nos anos 70.

Já se podia notar algumas novidades em “XXX”, dos anos 90, e em “Mescalero”, de 2003. Nada tão ousado quanto a pasteurização quase que artificial que dominou os trabalhos dos anos 80, mas estão lá os timbres metalizados – mas sem exageros –, o baixo mais “na cara” e a bateria também com uma sonoridade adequada aos anos 2000.

Os caras arrastam o andamento de seus blues rock até o limite e, quando ele está para sair do ritmo, entram com um solo infernal, como bem definiu o jornalista Julio Maria, de O Estado de São Paulo.

Criar sobre esta fórmula é mesmo uma dificuldade quando parece que tudo foi dito, disco após disco, mas a genialidade de La Futura está, como sempre, nos detalhes. Rock em estado bruto e hipnotizante. O ZZ Top foi o mais bem-sucedido dos três.

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