King Crimson anuncia 'novo retorno'

Estadão

14 de outubro de 2013 | 06h54

Marcelo Moreira

Definitivamente a aposentadoria faz mal aos gênios da música. Ou ficam doentes ou o tédio os consome de tal jeito que ou morrem ou tiram o pijama para voltar aos palcos. É o caso do magistral guitarrista inglês Robert Fripp, que há três anos anunciou sua retirada da música desiludido com brigas judiciais com gravadoras e discussões inúteis nos Estados Unidos sobre garantias aos direitos autorais em tempos de pirataria.

Aos 67 anos, Fripp decidiu ressuscitar sua maior criação, a banda King Crimson, talvez a banda mais radical do rock progressivo, entre as que tiveram algum sucesso e reconhecimento. Na semana passada, ele revelou que o grupo está de volta como um septeto, mas apenas com o baixista Tony Levin como remanescente da formação clássica dos anos 80 – ao que tudo indica, Fripp nem cogitou convidar o guitarrista Andrian Belew e o baterista Bill Bruford.

A nova formação tem agora Fripp, Levin, o guitarrista Jakko Jakszyk (guitarrista e compositor, participou da banda 21st Century Schizoid Man com ex-integrantes do próprio King Crimson), osaxofonista Mel Collins (que fez parte da bandas entre em 1972 e 1974) e três bateristas: Pat Mastelotto (que tocou com o grupo nos anos 90 e esporadicamente entre 2002 e 2008), Bill Rieflin (que foi músico contratado do R.E.M.) e Gavin Harrison, assíduo colaborador do Porcupine Tree e da banda solo de Steven Wilson (líder do Porcupine Tree.)

Em seu blog, Fripp disse que cedeu aos apelos da mulher, a cantora Toyah Wilcox, e de amigos para reativar o grupo. A banda vai precisar de aproximadamente um ano para estar apta a se apresentar, embora não haja a  garantia de que gravarão um álbum após este período.

A última notícia que se teve da banda foi em 2009, quando Belew deu entrevistas a sites e revistas dizendo que a banda estava dando um tempo para que cada um dos então integrantes cuidasse de suas carreiras solo e Fripp resolvesse seus problemas burocráticos e legais. O gênio das baquetas Bill Bruford, que é um dos fundadores do Yes, já tinha saído anos antes, quando declarou que estava se aposentando dos palcos e das gravações, mas não de cuidar de seu legado e de seu selo musical, além de seu estúdio de gravações.

Última formação do King Crimson, em 2007: da esq. para a dir., Mastelotto, Belew, Fripp, Harrison e Levin; os cinco estão de volta, com a adição de Mel Collins e Jakko Jakszyk. (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Instabilidade constante

Irascível, genioso e genial, Fripp demorou para ser conhecido no rock inglês. Tido como excêntrico e exigente, aprendeu a tocar piano e guitarra aos 11 anos, mas somente 15 anos depois decidiu se tornar músico profissional, depois de pensar em se dedicar à engenharia, ao desenho industrial e à advocacia. Formou o trio de rock progressivo-experimental Giles, Giles & Fripp, ao lados do irmãos Peter (baixo) e Michael (bateria), que lançou apenas um álbum em 1968.

Ignorado, o álbum fracassou e a banda implodiu. No ano seguinte, Fripp se uniu a um jovem baixista/vocalista prodígio, Greg Lake, e criou o King Crimson, que tinha ainda Michael Giles na bateria, Ian McDonald como flautista e tecladista ocasional e o poeta Pete Sinfield como letrista e responsável pela iluminação de palco. A estreia foi grandiosa, ao lado de Blind Faith (de Eric Clapton e Steve Winwood) abrindo para os Rolling Stones no famoso show de Hyde Park, em Londres, em homenagem ao guitarrista Brian Jones, morto dois dias antes.

Uma das melhores formações, entre 1973 e 1974

A formação durou apenas dois álbuns, sendo a perda mais sentida a de Lake, que fundou o Emerson, Lake and Palmer em 1970. A primeira era durou de 1969 a 1974, quando obras-primas como “In the Court of the Crimson King”, “Lizard” e “Lark’s Tongues in Aspic” foram gravados.

Entre 1975 e 1980 virou professor de guitarra e música nas melhores escolas da Inglaterra, além de colaborar ocasionalmente com David Bowie, Peter Gabriel e Brian Eno (com quem gravou dois álbuns dividindo os créditos de artista principal). No final da década criou o projeto instrumental/experimental The League of Gentlemen, com alunos e ex-alunos.

O King Crimson ressuscita em 1981, com apenas Bill Bruford da formação da década anterior – saíra do Yes em 1972 direto para a banda de Fripp. Levin e Belew completaram aquela que se tornou a formação clássica dos anos 80 e a mais conhecida da banda. Três excelentes álbuns foram lançados, mas Fripp cansou da brincadeira em 1985, em meio grandes desgastes com os outros três músicos.

Foto clássica da primeira formação, no começo de 1970: Greg Lake é o quarto da esq. para dir., atrás de Fripp

Nove anos depois, a terceira encarnação do King Crimson, que vira um sexteto, com a formação da segunda era mais o baixista extraordinário Trey Gunn e Pat Mastelotto na bateria e percussão. Em um novo conceito, raramente o grupo inteiro se reunia para gravar. Ao vivo e em estúdio, foram criados os Projekcts 1, 2, 3 e 4, que variam a formação em trios e quartetos. Ainda assim, todos os músicos participaram, integral ou parcialmente, de álbunms interessantes como “Thrak (1995)”, “Thrak Attack – Live in Buenos Aires” (1995),The ConstruKction of Light” (2000) e “The Power to Believe (2003), o último trabalho da banda, com apenas fagulhas da genialidade de outrora.

Nova parada em 2004, com as saídas de Gunn e Bruford, quase decretaram o fim do grupo, que tentou mais um retorno em 2007, com Fripp, Belew, Levin, Mastelotto e Gavin Harrison, que dividia seu tempo entre o Crimson e o Porcupine Tree. Houve vários ensaios e tentativas de gravar novas composições, mas Fripp e Belew se desinteressaram pelo projeto e se voltaram para as carreiras solo e problemas pessoais. As chances de novo fracasso do grupo são bem grandes, infelizmente.

A King Crimson ProjeKct

A King Crimson ProjeKct – Montagem não oficial de uma jam session com Collins e Jakszyk à esquerda

 

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