Kiara Rocks chama Paul Di’Anno e se surpreende com a generosidade da plateia

Estadão

22 Setembro 2013 | 21h28

Julio Maria

O risco era grande, uma escalação tensa. Desde que o Kiara Rocks foi anunciado como o primeiro show do Palco Mundo na noite de público mais impiedoso do festival, todos os episódios de vaia do histórico do Rock in Rio vieram à cabeça. Lobão em 1985, Carlinhos Brown em 2001, Gloria em 2011. Roberto Medina fez pesquisas, identificou que a banda tinha uma base de fãs volumosa e sentiu segurança para investir no grupo que ganhou fama participando de dois programas Astros, do SBT.

Já perto do final, o vocalista Cadu Pelegrini desabafou. Até ele se surpreendeu com a atitude generosa da plateia: “Hoje nós aprendemos que não podemos colocar toda aquela raiva e atitude contra quem está batalhando pelo rock nacional”, disse de si mesmo. “Devemos usar nossa raiva contra aqueles políticos filhos da p… que nos roubam todos os dias.” Uma forma elegante de dizer ”obrigado por não nos vaiar.”

Eles tiveram méritos. Chegaram com a força que nunca pode ser pequena quando se toca Ace of Spades, do Motorhead, e seguiram com repertório próprio por um tempo até lançarem mão de novos trunfos. Seu heavy metal em português não deixa de soar estranho e o grupo ainda precisa imprimir personalidade naquilo que faz. Pelegrini, como disse em entrevistas, estudou shows grandes e tentou aplicar em sua postura. Corria pra lá e para cá, às vezes, sem timing.

Perdia-se no palco gigante, voltando às pressas ou desistindo de um passeio quando percebia que era hora de retomar o microfone. Sinais Vitais, Falso Alarme, In Coma, Nada a Perder, Alice, fez uma após a outra armando uma sequência de personalidade porém perigosa de músicas próprias. Quando já cansava, chamou seus convidados todos de uma só vez. Marcão, guitarrista formador do Charlie Brown Jr, e Paul Di’Anno, vocalista do Iron Maiden entre 1978 e 1982, expulso da banda por seus exageros com o álcool e com as drogas.

Aí, a plateia era sua. Com Di’Anno nos vocais e Marcão na guitarra, o Kiara fez Highway to Hell, do AC/DC, e Blitzkrieg Bop, dos Ramones. Foi um momento de euforia maior da noite até ali, um grito de desabafo de uma plateia que parecia precisar daquilo. Paul não parecia querer deixar o palco, mas deixou. E o Kiara voltou a fazer músicas próprias, dando o recado de que não estava ali como banda cover. Pelegrini agradeceu a multidão e se emocionou ao ver o público que estava mais perto do palco gritar por “Kiara, Kiara”. “Obrigado por nos dar a melhor noite de nossas vidas”, disse, emocionado, antes de sair.

Mais conteúdo sobre:

Kiara RocksPaul Di'AnnoRock in rio