Kernunna mostra com competência um pequeno pedaço da Irlanda em Varginha

Estadão

31 de outubro de 2013 | 06h37

Marcelo Moreira

A capital brasileira dos duendes está em festa. Ao menos na música, vai expulsando os ETs com sabedoria e muita música boa e pesada. Depois do ótimo Tray of Gift, que lançou no ano passado seu álbum auto-intitulado, agora é a vez do Kernunna, que também lança seu trabalho de estreia, “The Seim Anew”.

As duas bandas são de Varginha, no sul de Minas Gerais,. e são filhotes diretos do Tuatha de Dannan, que está voltando à ativa inclusive. Totalmente mergulhadas no folk metal e no celtic metal, as três bandas mostram um som incomum no rock pesado abaixo da linha do Equador, mostrando que há “irlandeses” e “gaélicos escoceses” em um país latino-americano onde neve e frio congelante são raros de Santa Catarina para cima.

O Tuatha de Dannan é uma maluquice de meia dúzia de bardos que mineiros que não se conformavam em não ter nascido em Dublin, Belfast, Cork, Aberdeen ou nas Highlands escocesas. O som da banda era totalmente calcado em Jethro Tull e na banda que foi símbolo do fol metal dos anos 90, o Skyclad – seu ex-líder, o cantor Martin Walkyer, é presença constante no festival anual de metal da cidade, o ótimo Roça’n’Roll.

Com três álbuns muito bons na praça, o Tuatha decide dar uma parada por tempo indeterminado em meados da década passada, com seus integrantes partindo para outros projetos e atividades fora da música. O mais ativo deles, o vocalista Bruno Maia, que além de líder do combo é também o organizador do Roça’n’Roll, lançou em 2007 “Braia”, um CD mais voltado para a folk music, com a maioria das letras em português.

Kernunna

Com a indefinição do grupo, parte dos integrantes foi para o Tray of Gift, de orientação mais pesada e com mais guitarras, mas mantendo a pegada folk que caracteriza parte das bandas de rock da região. Pode-se dizer que é mais folk metal que a banda que a originou. Maia, cada vez mais ocupado com o Roça’n’Roll, só conseguiu pensar em música no ano passado, e o resultado é outra banda folk metal, incluindo outros integrantes do Tuatha.

O Kernunna impressionou logo que divulgou seus dois primeiros singles, a faixa-título do álbum e a que nomeia a banda, com arranjos simples, mas bem elaborados, e guitarras afiadas, mas sem o peso que a irmã Tray of Gift. O Kernunna, na verdade, é uma evolução natural do Tuatha de Dannan, seguindo a linha de apostar bastante em mais elementos celtas, com sonoridades que remetem diretamente à Irlanda e aos melhores momentos acústicos do Jethro Tull. “The Seim Anew”, a música, é empolgante por inteiro, com um timbre de guitarra equilibrado e solos instigantes.

O álbum do Kernunna soa mais bem resolvido que o do Tray of Gift, provavelmente por conta da produção melhor e das faixas mais diversificadas. Dá para ousar dizer que, justamente pela boa produção, “The Seim Anew” soa melhor até mesmo que os álbuns do Tuatha de Dannan, o que soa como uma heresia em um primeiro momento.

Enquanto a banda irmã soa bem próxima do Skyclad, com uma sonoridade sem muitas novidades, o Kernunna optou por buscar algo mais nas raízes do próprio Tuatha, misturando com influências de bandas como a irlandesa Cruachan, a suíça Eluveitie e a finlandesa Korpiklaani. Há muita presença de teclados, bem mais do que nas músicas do Tuatha, sem que isso descaracterize o folk metal “mais folk”, como no caso da ótima “Snark”.

Para os puristas do gênero, “Póg Mo Thóin” é uma brincadeira que mistura folk irlandês e country music em uma letra bem humorada – o título brinca com a sonoridade do quase impronunciável gaélico, que ainda é falando em várias regiões da Irlanda, do País de Gales e da Escócia. E dá-lhe rabeca, sanfona (ou acordeon) e sons que simulam instrumentos de origem celta e irlandesa.

Se o som remete diretamente ao mundo celta, algumas letras, mesmo em inglês, fazem alusão a aspectos do folclore nacional. É o caso de duas músicas: “Em The Last of the Seven Ears”, o tema versa sobre o personagem mineiro “Sete Orelhas”, um justiceiro dos tempos do Império. Já “Curupira’s Maze” é baseada no mito do Curupira, o personagem com os pés invertidos protetor das florestas e dos animais.

“The Dreamer” bebe diretamente na primeira fase do Genesis e na fase “Aqualung” do Jethro Tull. É o grande do destaque, com seu solo maravilhoso de violino e uma linha de baixo quase inacreditável. Para completar, um jogo de vozes e backings elogiável, de muito bom gosto, tudo embalado por uma cama delicada de teclados. Ao final da música, mais referências progressivas, desta vez ao excelente Yes. Já pode ser considerado um dos melhores lançamentos do ano no metal nacional.

A paixão de Bruno Maia pela cultura anglo-irlandesa é evidente e espalhada por todo o álbum. O título é uma experimentação linguística das interrogações “The Same? A New?” do escritor irlandês James Joyce. Além da faixa título, as músicas The Keys to Given! e Ricorso também têm como referência a obra “Finnegans Wake” de Joyce. Já a faixa “Snark” é uma alusão ao poema “The Hunting of the Snark”, de Lewis Carroll, que escreveu nada menos do que “Alice no País das Maravilhas”.

As composições ficaram ao cargo de Bruno Maia, vocalista do Tuatha de Danann e Braia. O músico também produziu o álbum, juntamente com Marco Diniz. As gravações foram realizadas nos estúdios Teochi e Roça ‘n’ Roll Studios.

“Sem dúvida, este disco é o melhor trabalho musical com o qual já me envolvi. Este é, a meu ver, o grande objetivo de qualquer artista, se superar. Conseguimos elevar o Folk Metal que praticávamos antes a um novo patamar, tem muito de Rock Progressivo, de World Music e as influências celtas e irlandesas estão mais evidentes. O lance de termos três vocalistas principais colore muito nosso som e nos abre novos horizonte “, destaca Bruno Maia em entrevista recente a um site de música mineiro.

O Kernunna é formado por Bruno Maia (vocal, guitarra, whistle, bandolim, banjo, bouzouki), Edgard Brito (teclado) e Rodrigo Abreu (bateria), juntamente com Khadhu (vocal, baixo e cítara), Marco Diniz (guitarra e vocal), Alex Navar (gaita de fole) e Daiana Mazza (violino). Essa formação, segundo o mentor da banda, é um “timaço” de músicos.

“Do Tuatha vieram dois amigos e parceiros com quem toco há anos, o Rodrigo e o Edgard, que já sabia a qualidade que eles trariam. Na gaita de fole, Alex Navar, um grande amigo e grande pesquisador da música irlandesa, integrante do Braia. O Diniz, além de ter gravado o disco, entrou com lindas linhas vocais e na guitarra. Os violinos foram gravados pela Daiana Mazza, que tocou com o Marcus Viana. E o Khadhu destruiu! Ele é um monstro musical, suas linhas de baixo são ótimas e saltam no disco inteiro, ele introduziu a cítara em duas músicas que deram um brilho animal no disco, além dos vocais que impressionam. Quem conhece o Cartoon, já sabe”, ressalta.

Tuatha de Dannan versão 2013

O Tuatha de Danann, a despeito dos projetos que originou, voltou definitivamente em 2013. O retorno ocorreu em grande estilo, no Roça’n’Roll deste ano, e teve shows em várias cidades do Sudeste no segundo semestre. Maia diz que a volta é para valer depois de quase cinco anos e de apresentações raríssimas e esporádicas desde então.

“Foi ótimo fazer novamente um show com o Martin (Walkyier) e com o Tuatha. Obrigado pela atenção de todos que estiveram lá ontem. Logo o Tuatha estará tocando em outras cidades, pois a demanda está grande e ainda estamos negociando novas apresentações”, declarou o guitarrista Rodrigo Berne ao site Imprensa do rock. “Se tudo der certo, um novo CD. Estamos fazendo as coisas com calma; queremos fazer um grande material novo, que, se possível, supere o CD Trova di Danú, veremos. Vontade nossa é que não falta, só não queremos entrar em frias e situações problemáticas que desgastam qualquer banda.”

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