Keith Jarrett: música que só se toca uma vez

Estadão

14 de janeiro de 2012 | 16h15

Jotabê Medeiros

No dia 9 de abril, o pianista Keith Jarrett subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Estavam apenas ele, o piano Steinway e a fotógrafa Daniela Yohannes. De um só fôlego, sem ter escrito partituras, sem ter feito anotações, sem ter ensaiado, sem nada, Keith Jarrett tocou 15 músicas, que foram gravadas pelo engenheiro de som.

O resultado daquela espécie de “mergulho de um rochedo, sem saber se há pedra ou água lá embaixo” (como o pianista costuma descrever essas suas incursões) sai agora no Brasil pela ECM Records (distribuição no Brasil do selo Borandá). Trata-se de “Rio”, ou o momento em que Jarrett fez o mais belo disco de jazz deste ano.

“Eu não sabia o que ia fazer. Não escrevi nada, foi tudo de improviso. Sem melodias, sem harmonias. Foi minha tentativa de estabelecer uma conexão com a cultura brasileira. O Brasil é muito acolhedor. Quando estou aqui, me sinto como se estivesse em casa. Tentei transmitir, por meio da música, o que define essa conexão”, disse Keith Jarrett ao Estado, numa ligação por telefone à meia-noite, de Nova York, respondendo pessoalmente a um pedido de entrevista feito por e-mail ao seu produtor executivo, Manfred Eicher.

“Você me pediu alguns momentos. Eu tenho alguns momentos agora. Amanhã não os terei”, alertou, de um jeito manso.
A promessa de alguns momentos com Keith Jarrett ao telefone até amedrontou o sono. Nascido no dia 8 de maio de 1945 em Allentown, Pensilvânia, ele é um dos mais importantes músicos do seu instrumento em atividade. Em 1962, estudava música na prestigiosa Berklee e tocava com seu trio pela região de Boston.

Em 1965, já estava em Nova York, quando foi recrutado pelos Jazz Messengers do baterista Art Blakey – tocou quatro meses com o grupo. De 1966 a 1969, tocou com o grupo de Charles Lloyd, o que principiou a lhe dar fama. Mas foi com o trompetista Miles Davis, de 1969 a 1971, em sua revolução fusion, que ele se tornou também lendário. Foi dali que ele (e também tecladista Chick Corea) apresentaram suas credenciais ao mundo.

“Nunca me senti habilitado a gravar música brasileira”, ele diz. “É uma sintaxe muito familiar para mim, mas não é uma música que eu domine. Isso é assim no mundo todo. No Japão, é difícil você se aproximar da essência da música japonesa. Na Europa, você tem a música clássica, a pintura. Na América, você tem o jazz. Formas cristalizadas. Mas eu não tinha ainda a ousadia de tentar me aproximar da música brasileira”, ele contou.

“Mas havia algo naquela tarde, e o piano era um Steinway americano. Se fosse um piano alemão, acho que não teria dado certo. Quando ouvi as fitas, imediatamente chamei meu produtor, o alemão Manfred Eicher, e disse que tínhamos um disco pronto”, ele lembra. O pianista pediu a Eicher que colocasse o álbum, que já considera uma de suas melhores performances, na frente de outros que já tinha gravado, para ser lançado imediatamente.

Jarrett conta que sim, conhece Tom Jobim, João Gilberto, Ivan Lins. “Conheço também inúmeras vozes femininas que cantam em português. Mas apaguei tudo no palco. Deixei que meus pensamentos musicais me guiassem”, disse. “O piano é mais como um violão para mim. Sempre que toco, também gosto de me guiar pela vibração da plateia, e naquela noite o público estava especialmente ligado.”

Mas podem perder as esperanças: não haverá turnê desse disco. Essa música não existe fora desse momento. “Não posso tocar nada duas vezes”, explicou Jarrett. “É uma vez só. É um pouco difícil. Gostaria de poder fazer isso, mas não posso”, explicou-se.

Keith Jarrett teve problemas de saúde no fim dos anos 1990. Foi diagnosticado com Síndrome da Fadiga Crônica, que dificultava seus movimentos e fez com que tivesse de se submeter à fisioterapia durante algum tempo. Também perdeu a mulher logo depois, e passou um período difícil. Sua apresentação no Rio de Janeiro o mostra totalmente recuperado. Até o perfeccionismo voltou: o concerto só ocorreu porque a produção mandou vir de Nova York o piano Steinway, modelo D, Grand Concert, com o qual ele tocou.

Jarrett tem uma fama similar à de João Gilberto: detesta que o público faça barulho no meio das execuções. No concerto da Sala São Paulo, em abril, ele mostrou que sabe rir da própria reputação ao dizer ao público, no fim da apresentação: “Vocês podem tossir agora”. Ao voltar para o bis, entretanto, o público não atendeu ao seu pedido de tirar todas as fotos que quisesse antes da música – o flashes continuaram e Keith saiu na metade do bis, e não voltou mais.

Em 2009, o crítico do Estado, João Marcos Coelho, escreveu: “Jarrett consegue, aos 64 anos, improvisar com a mesma intensidade e qualidade artística que caracterizaram os mais adorados compositores do passado. Bach era genial improvisando ao órgão e em qualquer instrumento de teclado; Beethoven reclamava que via publicados nas semanas seguintes seus improvisos que ouvidos ladrões capturavam em suas janelas; e Mozart era o caso à parte, a ponto de escrever as partes de orquestra, mas deixar em branco a parte solista num concerto de piano que estrearia, improvisando diante do público. É preciso derrubar de uma vez por todas o preconceito de que música boa tem que ser música escrita.”

Não são composições

Keith Jarrett faz alguns vocalises em algumas faixas, usa uma cadência de bossa em outras, avança pelo blues e pelo funk em outras. Mas o que chama a atenção em Rio, além da música luminosamente bela, é o fato de que é mesmo um disco de música brasileira.

As faixas não tem nomes, apenas números. Ainda assim, há uma divisão clara entre os temas, e o disco 1 é como se fosse um passeio pela praia; já o disco 2 vai sofisticando as melodias, como se se espraiasse também pelas contradições e contrastes de uma terra presumivelmente paradisíaca. Não são composições, mas isso importa?

Jarrett conseguiu sintetizar uma visão do País que não é um clichê, nem tampouco é uma visão acessória. Passa a léguas daquilo que Eumir Deodato chama de “produto dos aproveitadores da bossa nova” – até Stan Getz está no bolo, segundo ele. Jarrett só tinha tocado no Brasil quase duas décadas atrás, e dizia que tinha deixado “negócios inacabados” por aqui.

Queria tentar entender, por seus próprios meios da improvisação, o que fazia com que se sentisse tão próximo da cultura do País. O disco é jazzístico, mas, como ele diz, também é “sério, doce, divertido, quente, econômica, enérgico, apaixonado” e resume tudo que pensa.

Tudo o que sabemos sobre:

Keith Jarrett

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.