Julian Temple, o homem que colocou o rock na tela

Estadão

26 de maio de 2012 | 06h47

Jotabê Medeiros

Ele fez o cinema se debruçar visualmente sobre as obras de David Bowie, Clash, Sex Pistols, Dr. Feelgood, entre outros astros do rock. Sua cinematografia resultou num neologismo que é amplamente utilizado hoje em dia, o rockumentary, um tipo de documentário que examina a mitologia do rock.

O cineasta britânico Julian Temple está no foco do 16.º Festival Cultura Inglesa, neste fim de semana – sua obra chave, o cult movie Absolute Beginners, de 1986, que teve David Bowie e Sade como estrelas, será reexibida na jornada.

Ele mesmo estava de malas prontas para vir, na semana passada, mas a morte repentina do seu pai o fez cancelar a palestra que faria. Antes de tudo, porém, ele falou ao Estado de S. Paulo sobre o retorno ao Brasil (esteve recentemente no Rio de Janeiro para escolher locações para a série Children of the Revolution, uma varredura fílmica de cidades musicais pelo mundo afora.

Em uma breve mas vibrante entrevista, Temple falou de muitos assuntos, do Rio de Janeiro ao agitador cultural Malcolm McLaren, que descobriu os Sex Pistols e morreu recentemente. “Ele podia combinar genialidade e tolice, esperteza e estupidez em poucos minutos”, afirmou.

Também falou da própria vida, e do orgulho com a filha atriz, a bela Juno Temple, de 21 anos, que está no elenco do novo filme do Batman. “O que é mais importante para mim é que ela sabe o que faz. Há péssimas experiências na indústria do cinema, mas ela tem convicção de suas escolhas”, garantiu.

Sobre o filme que o projetou como artista, Absolute Beginners, Temple é ambíguo em sua avaliação. Diz que o fracasso inicial do filme só foi mais evidente na Inglaterra, justo onde deveria ser um sucesso. Mas que o fato de ter se tornado um cult movie nos anos seguintes o redimiu.

“Sou feliz com o sucesso, mas ainda tenho problemas com o filme. Não é perfeito. Era um projeto ambicioso e funcionou, e visualmente é muito poderoso. De qualquer modo, veio do meu coração. Faço meus filmes como manifestos pessoais”, disse.

 Absolute Beginners foi, para a Inglaterra, o equivalente a Ruas de Fogo para os americanos. Um filme inicialmente rejeitado que vai sendo redescoberto aos poucos, e logo é aceito como retrato de um período e de suas aspirações.

Baseado em livro de Colin MacInnes, o musical de Julian Temple parecia anacrônico em sua alegoria dos anos 1950, mas era apenas uma antevisão de anacronismos. Aos 59 anos, Julian Temple começou na vida filmando os primeiros shows dos Sex Pistols e nunca parou de fazer filmes.

16º CULTURA INGLESA
FESTIVAL
Programação completa: http://festival.culturainglesasp.com.br. De 25/5 a 30/6

ENTREVISTA

Você tem um projeto de um filme sobre o Rio de Janeiro, que integraria a série Children of the Revolution. Já começou a filmar?

Ainda não. Estivemos visitando o Rio para escolher locações. A série é sobre cidades musicais, centros urbanos cuja história social seja permeada pela música, cujo desenvolvimento tenha se dado com o desenvolvimento musical. Escolhi algumas delas, como Detroit, nos Estados Unidos, e Londres. O Rio é uma das mais ricas cidades, musicalmente falando, do mundo. Pensei em partir de um grande evento musical, mas dei uma olhada no Rock in Rio e não acho que conte uma história da cidade. Estive também nos bailes funk, fui a algumas favelas. Estou mapeando o caminho.

Você está na origem do termo rockumentary, o documentário de rock. Mas seu primeiro filme do gênero, Absolute Beginners, foi um fracasso de bilheteria quando estreou, não foi?

Na Inglaterra foi. Na França e na Espanha foi bem. De qualquer modo, não faço filmes para fazer dinheiro, mas simplesmente porque é meu trabalho. Não fui para os Estados Unidos fazer filmes para poder desfrutar de uma jacuzzi em Hollywood. É claro que fiquei um pouco deprimido naquela época, o filme é parte da minha carreira. Creio que ele descreve muito bem como era a vida naquele período em Londres e sou feliz com o seu sucesso posterior, a reavaliação, mas ainda tenho problemas com ele. Não é perfeito. Era ambicioso e funcionou, e visualmente é muito poderoso. Vem do coração, isso eu posso dizer. Sempre faço meus filmes como manifestos pessoais.

Você examinou no cinema os Sex Pistols, o glam rock, o Clash. Não tem interesse em astros britânicos mais contemporâneos, como os irmãos Gallagher ou Amy Winehouse?

Em primeiro lugar, eu me interesso pela música. Acho que a Amy Winehouse é de fato fascinante do ponto de vista humano, mas não me ligo tanto no soul revivalista que ela escolheu. Penso que não há uma música realmente nova, só reciclagem. Eu sempre escolho a música que considero nova, que gera respostas sociais, que transmite uma poderosa energia.

Você abriu um caminho, mas hoje em dia há outros cineastas fazendo coisas opostas ao que você fez. Um exemplo é Todd Haynes, diretor de Não Estou Lá, sobre o Bob Dylan. Gosta do estilo dele?

Não estou certo se o filme do Dylan é um dos meus favoritos. Tem seu valor como obra experimental, mas não sei se gosto da ideia. Prefiro mais Scorsese filmando rock.

Parte da avaliação que se tem do produtor Malcolm McLaren veio de sua forma de examinar a participação dele nos eventos culturais de Londres nos anos 1970. No final, ele era um picareta ou um gênio?

Acho que ele era ambos. Ele podia combinar genialidade com tolice, alternar esperteza e estupidez em poucos minutos. Também era um homem intrigante, uma figura fascinante. Foi muito útil na época, fez com que muitos artistas explorassem suas capacidades e potencialidades e foi um pensador original, porque foi o primeiro a ser irônico com os meios de comunicação, a usar essa ironia em proveito próprio. Acho que ele ainda é o responsável por muito do que acontece na cultura inglesa de hoje em dia.

 

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