Jovens acanhados do The xx mostram amadurecimento em turnê que vem a São Paulo

Estadão

24 de outubro de 2013 | 17h00

Rafael Abreu – O Estado de S. Paulo

 

A banda The xx - Divulgação
Divulgação -A banda The xx

A voz de Romy Croft, guitarrista e vocalista da banda britânica The xx, carrega a mesma ambiguidade dos sussurros de VCR, Basic Space e Angels, faixas dos dois discos de estúdios do grupo. Suave e relaxado, comedido e acolhedor, o murmúrio da cantora é duplo como a música que faz com Oliver Sim (baixo e vocais) e Jamie Smith (batidas e MPC): tão tímida quanto confessional, escancarada, mas um tanto cautelosa. Mal se adivinha, pela garganta, que faz um ano e meio que ela roda o mundo, numa turnê que antecedeu o disco e chega a São Paulo no domingo, quando se apresenta no Popload Festival.

Não é como se as cordas vocais não estivessem cansadas, no entanto, um ano e meio de estrada para um trio como o deles pode se tornar um pouco exaustivo. O The xx surgiu quando eram adolescentes e, com o tempo – da estreia no estúdio ao ponto em que estão, com oito anos de carreira – Romy –, Oliver e Jamie mantiveram um quê de juventude silenciosamente assustada. Conquistaram fama pelo que têm de acanhados: quase sempre vestidos de preto, de expressões indiferentes ou cabisbaixas, uma reticência tipicamente juvenil e um punhado de letras românticas, sentidas e ressentidas. Astros do avesso, em suma. “Nenhum de nós é a pessoa mais extrovertida do mundo”, admite Romy ao Estado.

O trabalho de divulgação extenso de Coexist (segundo álbum da banda, lançado no Brasil pela Lab 344), nesse contexto, foi uma espécie de processo de amadurecimento, explica Romy. “No início de nossa carreira, eu era muito tímida. Eu não conseguia nem olhar para a frente. Amava tocar ao vivo, mas não parecia que queria estar no palco”, explica, rindo de uma versão antiga de si mesma. Com a turnê de xx e mais esta, conta, acabaram se encontrando no palco.

Parte dessa descoberta passa, também, pelo conflito com o que a sonoridade de Coexist tem de diminuta. Lançado no fim do ano passado, é uma continuação da verve minimalista do disco de estreia, com uma eminência ocasional das batidas da música eletrônica londrina que a banda sempre explorou pelas beiradas, em grande parte por causa de Smith, que também trabalha como DJ e produtor, remixa faixas e lançou We’re New Here em 2011, um disco com o soulman Gill Scott-Heron. Coexist é, portanto, um trabalho de quarto de porta fechada, basicamente, e Romy recorda uma época em que concordava com essa visão. “Inicialmente, eu achei que era melhor ouvir a nossa música com fones de ouvido. Mas, na verdade, tenho me surpreendido. À medida que tocávamos em lugares maiores, tivemos que, de certa forma, nos mostrar à altura desses grandes públicos”, explica.

A América do Sul e o Brasil, nesse contexto, são destinos cobiçados há algum tempo. Em outras entrevistas, conhecer as paisagens locais já tinha sido declarado como um grande desejo da banda. A relação com o País, que para Jamie e Romy é de curiosidade, já que não conhecem nem o Rio nem São Paulo, é mais próxima para Oliver. Romy, amiga de infância do vocalista, diz se lembrar de vê-lo, impressionada, jogando capoeira. Desde então, tem interesse pelo Brasil, apesar de não conhecer nada de música brasileira.

Falando ao Estado de Monterrey, no México, Romy diz apreciar a turnê que passou, mas também se mostra animada para o período que vem à frente, incluindo a volta para casa: “Amamos viajar, mas o maior problema é que não somos muito criativos enquanto estamos em turnê. Acho que chegamos ao ponto em que queremos fazer música nova”.

De acordo com ela, os dois discos dizem respeito a momentos muito específicos de suas vidas. “Quando eu olho para trás, acho que o nosso primeiro álbum é como um diário de nossa adolescência, dos 16 aos 19 anos. E Coexist foi feito num espaço muito menor de tempo, mais concentrado. Tocá-los é como olhar para fotografias antigas”, relembra. O desejo de Romy, agora, é tentar compor e escrever sobre o que sente agora, tornar-se mais próxima da própria música.

Por enquanto, a conversa e o desejo são um tanto vagos. De concreto sobre um novo álbum, apenas a intenção de experimentar um andamento diferente das composições mais vagorosas, quem sabe com uma guinada a um som entre o lento de uma balada e a “house com soul” de que Romey diz gostar. Há muitas ideias para o novo disco, segundo ela. A questão é como o grupo vai misturá-las.

THE XX – POPLOAD

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281. Sáb., às 22 h. Ingressos: de R$ 100 a R$ 400. www.hsbcbrasil.com.br

Tudo o que sabemos sobre:

The xx

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: