Jornada pelo legado de Fela Kuti

Estadão

24 de novembro de 2012 | 16h05

Ramiro Zwetsch – ESPECIAL PARA O ESTADO DE S. PAULO

“Anikulapo” é uma expressão em iorubá que significa “com a morte no bolso”. O músico nigeriano Fela Kuti (1938-1997) adotou a alcunha em 1977, depois de resistir a centenas de agressões policiais sem jamais abrir mão de seu discurso de protesto contra as desigualdades do continente africano.

Ele morreu em 1997, mas a obra permanece viva: sua história é tema de um espetáculo de sucesso que estreou na Broadway em 2010 (com produção dos popstars Will Smith e Jay-Z) e o Ocidente começa a compreender que sua importância para a música negra se equipara às contribuições de ídolos consagrados como Bob Marley ou James Brown.
Politicamente, no entanto, o africano coloca o jamaicano e o norte-americano no seu já citado e simbólico bolso. Trata-se, afinal, do artista que inventou o gênero musical afrobeat (uma mistura do funk e do jazz com as raízes rítmicas da África), gravou mais de 70 discos, se candidatou à presidência da Nigéria, enfrentou durante toda a vida o ditador Olusegun Obasanjo e foi – ainda é – uma das vozes mais contundentes do pan-africanismo.

Anikulapo é também o título escolhido pelo documentarista Pedro Rajão para o filme que ele está produzindo sobre as conexões do afrobeat com a música brasileira.

Beneficiado pelos vários shows de músicos africanos que aconteceram no Brasil desde 2010, ele se movimentou e colheu entrevistas com todos eles: Tony Allen (baterista nigeriano, cofundador do afrobeat), o maestro etíope Mulatu Astatke, integrantes da Orchestre Poly-Rhytmo de Cotonou (big band de Benin), o músico ganês Ebo Taylor, além dos filhos de Fela, Femi Kuti e Seun Kuti.

O material já captado inclui também depoimentos de músicos brasileiros como Gilberto Gil, Letieres Leite (Orkestra Rumpilezz), Criolo, B-Negão, Lúcio Maia (Nação Zumbi), Mr. Catra, entre muito outros.

“A abordagem maior do filme é aproximar essa música de uma linguagem brasileira, mas sem ufanismo”, explica o diretor. “É, sobretudo, abordar alguns afrobeats nossos que já fazem a mistura diaspórica da música negra, mas com signos mais familiares – Candeia, o mangue beat, o funk carioca.”

Outro entrevistado importante foi o biógrafo e amigo pessoal de Fela, Carlos Moore, que mora em Salvador há mais de 15 anos. Seu livro Fela. Esta Vida Puta, foi escrito na década de 1980 e, no ano passado, saiu finalmente no Brasil. Para ele, Anikulapo tem potencial para colaborar com uma melhor compreensão da África.

“A realidade é que não existe no hemisfério ocidental um país mais africanizado que o Brasil, tanto na sua cultura como na sua demografia. É um país com potencial geopolítico e cultural para compreender as denúncias que Fela combatia com tanta valentia”, argumenta. “O filme vem à tona num momento em que o Brasil está reorientando sua política internacional e tentando estabelecer uma parceria econômica e política com o continente africano”, acrescenta Moore.

No momento, Pedro Rajão se concentra na viagem à Nigéria que ele vai fazer ainda este ano. Lá, pretende entrevistar parentes e amigos de Fela Kuti e filmar lugares que foram importantes na sua trajetória – como o clube Shrine, onde chegou a se apresentar diariamente, e a casa do músico, conhecida como república Kalakuta, alvo de vários ataques do exército nigeriano.

Para realizar esta etapa do projeto, o diretor recorreu ao sistema de financiamento coletivo, por intermédio do site Catarse (www.catarse.me/anikulapo). Os colaboradores da campanha ganham recompensas que variam de nome nos créditos do filme até um disco de Fela trazido da Nigéria. O afrobeat ecoa e Fela Kuti justifica cada vez mais a alcunha “Anikulapo”.

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