Jon Lord regrava a sua obra-prima no Deep Purple com Bruce Dickinson e Steve Morse

Estadão

22 de junho de 2012 | 06h56

Marcelo Moreira

O tecladista Jon Lord sempre foi um músico ambicioso. Homem inteligente e culto, amante de música erudita e de concertos para piano de compositores como Beethoven e Bach, imaginava que conseguiria fazer sucesso indo além do rock que se fazia no mundo nos anos 60. Quarenta anos depois, ele reedita sozinho, sem a banda que criou e o ajudou, o Deep Purple, o que ele considera o grande trabalho de sua carreira, o “Concerto for Group and Orchestra”.

Lord, aposentado do Deep Purple desde 2001 e em meio a um tratamento contra um câncer, chamou amigos como Bruce Dickinson (Iron Maiden), Steve Morse (Deep Purple) e o blueseiro Joe Bonamassa, além de músicos eruditos russos e búlgaros que o acompanham em seus shows solo.

Previsto para ser lançado em setembro, terá a participação também da Royal Liverpool Philarmonic Orchestra, desta vez conduzida por Paul Mann, o mesmo que foi responsável pelos shows de 1999-2000.

 

Ambição

Embora meio fora da turma naquela década de 60 por ser um músico erudito e mais velho, Jon Lord admirava a garra e a disposição dos garotos como Rolling Stones e Who, bem como a audácia do Pink Floyd e do Moody Blues, e reverenciava a reviravolta que os Beatles deram na carreira com os álbuns “Revolver” e “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, que achava excelentes.

Entretanto, quase chegando aos 30 anos de idade e praticamente sendo um maestro, imaginava-se fazendo algo novo e mais “avançado” no rock e na música popular, bem diferente do que se fazia na Inglaterra pelos meninos – era mais velho do que todos, até mesmo do que John Lennon, embora mais jovem do que Bill Wyman (Stones) e John Mayall.
E foi na companhia de um gênio inquieto e irascível, o monstro Ritchie Blackmore, que Lord montou o Deep Purple em 1967 para traduzir as suas peças que misturavam diversas influências pop e eruditas.

Os três primeiros álbuns da banda tiveram desempenhos apenas razoáveis nas paradas e nas vendas, mesclando música de vanguarda, um pé no pop norte-americano e um rock progressivo dominado pelas linhas intrincadas de teclado de Lord e pelas melodias etéreas e criativas.

A grande chance

Quando Blackmore deu um ultimato para que houvesse uma mudança de rumo, incluindo a troca de vocalista e baixista (Rod Evans e Nick Simper, respectivamente), Lord achou que era a hora de dar a tacada final em seu projeto grandioso de elevar o rock à categoria de arte e misturar música erudita com o pop, indo além do que o rival Keith Emerson estava fazendo com sucesso no The Nice.

Blackmore topou dar mais uma chance e o maestro comandou as gravações do magnífico – e incompreendido – “Concerto for Group and Orchestra”, lançado em 1969 já com as presenças, ainda que tímidas, de Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo), ambos vindos do Episode Six.

 

Capa do álbum lançado em 1969 pelo Deep Purple

A Royal Philarmonic Orchestra de Londres, que acompanhou o grupo, foi regida pelo maestro Malcolm Arnold, sob as orientações de Lord, autor da parte final do álbum, gravado no Royal Albert Hall, que constava de trës movimentos – “First Movement: Moderato-Allegro”, “Second Movement: Andante” e “Third Movement: Vivace-Presto”, com letras de Gillan.

O álbum duplo ainda continha uma obra de autoria de Arnold, a “Symphony nº 6”, e ainda os três primeiros rocks gravados por Ian Gillan com o Deep Purple, “Hush”, uma versão para um clássico de Joe South, “Wring that Neck”, um instrumental da época que Simper ainda tocava, e o mega-clássico “Child in Time” ao vivo, com 12 minutos, que também estaria no álbum “In Rock”, de 1970.

A crítica especializada em música erudita espancou o álbum, apontado suposta “falta de qualidade e ausência de senso estético”. Os roqueiros apontaram o que chamaram de “arrogância, prepotência e ambição desmedida” para desqualificar a obra.

Foi a deixa para que Ritchie Blackmore tomasse as rédeas do Deep Purple e o transformasse no gigante do hard rock dos anos 70, com a sua guitarra assumindo a condução dos trabalhos e das composições. Resignado, Lord aceitou a nova situação e contribuiu brilhantemente para alguns dos hinos do rock.

Celebração

Quando a obra completou 30 anos de lançamento, o Deep Purple, já sem Blackmore, decidiu voltar ao Royal Albert Hall e reunir-se novamente com a Royal Philarmonic Orchestra para celebrar a menosprezada e subestimada obra de 1969.

Gravado ao vivo, com público lotando o local e vários convidados, entre eles Ronnie James Dio e o cantor inglês Miller Anderson, rendeu um álbum ao vivo de sucesso e uma turnê mundial em 2000, que passou pelo Brasil. Em cada local uma orquestra foi especialmente preparada para acompanhar a banda.

Durante entrevista a uma emissora de TV brasileira, Lord declarou que aquela turnê era a melhor homenagem que ele, como músico, poderia receber. E o tecladista-maestro parece que não vai largar sua obra máxima tão cedo.

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