John Mayer é uma espécie em extinção

Estadão

22 Setembro 2013 | 13h47

 

Julio Maria

John Mayer fez uma escolha que intrigou o público conquistado com seus primeiros discos. Cultuado como uma espécie de ‘salvação do blues’ nos anos 90, o menino prodígio abriu mão deste título para fazer música para mais gente. Ainda que reconhecendo Eric Clapton e Stevie Ray Vaughan como mestres, mantendo o que aprendeu com eles sob os dedos em frases tiradas muitas vezes nota por nota, levou sua guitarra para outras frentes e passou a fazer música pop para corações desencontrados. Sua passagem pelo Rock in Rio, na noite de ontem, deus sinais de que, se o objetivo era ser grande, ele acertou. Não existe hoje ninguém fazendo o que John Mayer faz.

Mayer é um guitarrista cantor e compositor, espécie em extinção. Um bom cantor, um bom letrista e um guitarrista absurdamente talentoso. É forte em três frentes ao mesmo tempo. Ele segura o show só com violão o tempo que for preciso (fez isso na abertura, com No Such Thing, e mais à frente, com Wonderland e Daughters). É forte em canções pop (seus hits Slow Dancing e Half of my Heart são decisivos). E faz muito bem o blues que o fez ser músico um dia (algo que não mostrou no show de ontem). Algo estranho aconteceu com Waiting on The World to Change, seu trunfo para qualquer palco. O som saiu abafado e, curiosamente, não pegou a plateia como deveria. Esta música mostrou mais claramente também uma deficiência que, até então, era bem disfarçada. Mayer não tem mais a voz que tinha, depois que passou por sérios problemas nas cordas vocais que o levaram a fazer um tratamento com injeções de hormônio e o deixaram mudo por um bom tempo. Ele cantou Waiting desviando das subidas o tempo todo, algo que geralmente enfraquece a interpretação.

Ao mesmo tempo que a voz desce, torna-se um guitarrista ainda melhor por justamente ter treinado guitarra enquanto se recuperava dos traumas vocais. Faz solos sem palheta, usando apenas o indicador, para, um pouco adiante, sacar a palheta do meio dos dedos, crescendo as frases com mais atitude (lições de Mark Knopfler). Seu diálogo com o público é bastante reservado e seus olhos ficam tristes o tempo todo.

“Eu esperei um longo tempo para ver vocês”, foi o que disse de mais simpático na primeira parte do show. Os telões mostravam meninas muito novas chorando, espremidas nas grandes. Um mérito digno de aplausos. Uma cena que, há muito tempo, não se vê por um guitarrista. Contudo, o que ele faz de melhor é tocar. Quando chega Gravity, homenageia Jimy Hendrix (melhor pensar assim do que imaginar que ele quis ser criativo) solando com a guitarra no solo do palco. Sua única estratégia para adrenalizar a plateia e deixar o palco como um guitar hero, uma espécie em extinção.

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