John Lennon e Yoko Ono sem cortes

Estadão

23 de junho de 2012 | 23h39

FELIPE BRANCO CRUZ

O escritor e jornalista americano David Sheff, de 56 anos, eleito em 2009 pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, minimiza sua importância. “Não consigo influenciar nem meu filho.”

O comentário baseia-se em sua experiência pessoal com o filho, de 28 anos, ex-viciado em drogas, que sofreu uma overdose e quase morreu. Um ano antes de entrar na lista da Time, Sheff tinha lançado o best-seller Querido Menino (Editora Globo), em que fala, de maneira comovente, da sua relação com o filho.

Na introdução deste livro, ele cita um trecho da canção Beautiful Boy (Darling Boy), de John Lennon: “When you cross the street, take my hand (Quando você atravessar a rua, segure na minha mão)”, lançada no último álbum do ex-beatle, Double Fantasy, de 1980. Citar Lennon num livro tão pessoal e importante na carreira do autor denuncia a influência que Lennon teve em sua vida.

Quando tinha 24 anos, em 1980, Sheff passou três semanas com o casal John Lennon e Yoko Ono, e registrou 22 horas de conversas para a Playboy, que chegou às bancas dois dias antes do assassinato do músico, naquele mesmo ano. Obviamente que tantas horas de entrevista não caberiam nas páginas de uma revista.

Foi por isso que, 20 anos após a morte de Lennon, Sheff lançou o livro A Última Entrevista do Casal John Lennon e Yoko Ono, com a transcrição na íntegra em 290 páginas. Somente agora, 12 anos depois do lançamento da edição americana, é que a obra foi traduzida para o português e lançada no País.

“Eu tinha só 15 mil palavras de espaço para escrever, o que significa apenas 5% do material total. Tivemos de cortar muita coisa”, diz o autor, por telefone, de sua casa em São Francisco, nos EUA, sobre a versão publicada na Playboy.

Além da entrevista, Sheff acompanhou parte das gravações de Double Fantasy. “Fui encontrar Lennon com 60 páginas de perguntas e não consegui fazer todas”, lembra. Esta, no entanto, não tinha sido a primeira entrevista de Sheff com uma grande personalidade. Antes, ele já tinha conversado com Steve Jobs, Tom Hanks e Keith Haring. Nervoso, o jornalista acabou encontrando um ex-beatle “muito gentil e caloroso”.

Sheff entrevistou Lennon nos estúdios, entre uma gravação e outra das músicas de Double Fantasy, no edifício Dakota, casa de Lennon e Yoko, e até no banheiro, onde eles encontravam algum silêncio. Das declarações dadas por Lennon, algumas impressionam pelo aspecto premonitório.

“Mahatma Gandhi e Martin Luther King são grandes exemplos de fantásticas personalidades não violentas que morreram de forma violenta. Não consigo entender isso. Somos pacifistas, mas não sei o que significa ser tão pacifista a ponto de levar um tiro”, disse Lennon a Sheff. Ou ainda: “O maior prêmio de todos é quando você morre – um prêmio grande mesmo por morrer em público. Ok. Essas são coisas em que não estamos interessados”.

O livro oferece um panorama sincero e escancarado da intimidade de Lennon. A Sheff, o músico conta sobre como passou os últimos cinco anos da vida: “Andei fazendo pão e cuidando do bebê”, revela ele, que fala ainda sobre drogas, a morte da mãe, o distanciamento do pai, as críticas por casar com Yoko e a relação com os filhos Julian e Sean.

Numa dessas passagens, Lennon fala do relacionamento com Yoko. “Alguém me dizia: ‘Por que você está com essa mulher feia?’ E eu respondia: ‘Do que você está falando? Eu estou com a deusa do amor, que preenche toda a minha vida’. Por que alguém deseja me punir por estar apaixonado por ela?”, desabafa Lennon.

Sem perceber, o leitor acaba se envolvendo de tal maneira na entrevista que tem a impressão de estar na mesma sala acompanhando a conversa, como um espectador privilegiado. “Na época, eu só pensava: ‘Esse cara incrível está aqui conversando comigo.’ Eu tinha 24 anos. Para mim, foi como um milagre”, diz Sheff. “As lições de John e Yoko jamais se perderam em mim.”

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