João Gordo não rasga mais dinheiro e assume o 'personagem' – e ainda assim incomoda

Estadão

05 de agosto de 2013 | 06h52

Marcelo Moreira

Quem paga as contas do traidor? A pergunta tem sido repetida por admiradores e defensores de João Gordo, vocalista eterno do eterno Ratos de Porão, mas que também atua como apresentador/artista de televisão. Atacado há pelo menos 25 anos ininterruptamente por radicais de todos os subestilos do rock – punks, metaleiros e tradicionalistas em geral -, o músico resolveu provocar todo mundo em recente entrevista de quatro páginas na edição de julho da revista Rolling Stone Brasil.

Ainda que se considere, de certo modo, a entrevista viciada – o autor é um jornalista que está produzindo a biografia do músico -, tem o mérito de trazer João Gordo de forma menos caricata. Claro, os exageros estão lá, como não poderia deixar de ser, mas pela primeira vez em muito tempo João Gordo esteve mais próximo do João Benedan, o verdadeiro nome. Benedan ganhou mais espaço desta vez, e o Gordo foi menos fanfarrão e mais autêntico. Com sinceridade cortante e nenhuma concessão, o personagem cresceu e ficou mais interessante.

Desprezando os radicalismos e os moralismos, estapeando os puristas e chutando a canela dos “ditadores de regras”, o vocalista do Ratos de Porão não deixou de ser o verborrágico punk/hardcore, mas revelou seu lado profissional e seu talento para o trabalho artístico-cômico, que lhe garante rendimentos que jamais poderia ter cantando com sua veterana banda punk.

Uma grande e eterna contradição é como ele se vê hoje, quase aos 50 anos de idade, pai tardio de duas crianças e casado há mais de dez anos. Foi corajoso – e jocoso – ao admitir que não tem problema algum ao frequentar uma festa de criança recheada de celebridades, como foi o aniversário do filho da apresentadora Eliana, para depois se encaminhar a um buraco do centro da cidade para ver um show de metal extremo de uma banda europeia.

João Gordo, enquanto funcionário da TV Record

Mais ainda, afirma se sentir bem nestes ambientes, ainda que não goste de certas coisas – ele pode até, às vezes, sair do punk, mas o punk jamais sairá dele. E mais ainda: arrepende-se de ter recusado por várias vezes propostas para estrelar campanhas publicitárias de caráter duvidoso – o até mesmo espúrio -, que lhe renderiam cachês que ultrapassariam R$ 400 mil, em alguns casos, segundo revelou ao jornalista André Barcinski.

E disse mais, para choque daqueles que ainda veem algum tipo de integridade no músico: que hoje aceitaria qualquer tipo de proposta publicitária por valores bem polpudos, mesmo que tivesse que pagar os maiores micos – como, por exemplo, se vestir de papai noel (???) ou até a camisa do Corinthians (João Gordo é palmeirense, e já teve seus períodos de fanatismo).

Não se incomodou nem um pouco em dar munição pesada para os detratores e inimigos e ignora completamente quem o vê como motivo de chacota. Assume seu lado classe média e seus hábitos burgueses, principalmente os empregos bem remunerados em emissoras de TV. E demonstra estar de bem com a vida.

A questão principal que envolve João Gordo é que sua figura ainda incomoda – e incomoda bastante. Incomoda por ser quem ele é, um músico respeitado internacionalmente; incomoda pelo seu passado, o de um punk radical e junkie, autor de músicas pesadíssimas e de letras destruidoras contra tudo e contra todos; incomoda por seu surpreendente e quase inacreditável sucesso na TV; incomoda porque ele segue ainda sendo João Gordo, sendo ele mesmo, ainda que tenha mudado de opinião a respeito de certos aspectos da sociedade, do dinheiro e até mesmo da vida  já que quase morreu duas vezes por conta dos excessos etílicos, de drogas e de peso.

João Gordo (primeiro à esq.) com os companheiros do Ratos de Porão

Que bom que João Gordo gordo continua incomodando, ainda que renegando parte das opiniões demolidoras do passado. Não sente saudades da “cena punk”, cheia de revoltados e de preconceitos diversos, segundo ele. “Só tinha briga o tempo todo, gente querendo bater, quebrar e estropiar, cheio de gente dona da verdade mais estapafúrdia. Não hesitei em ir para o lado do metal, onde o pessoal era bacana, gente fina, curtia som de verdade, além de não ter brigas. Sem falar que tinha muito mais meninas”, disse o vocalista na entrevista à Rolling Stone.

João Gordo é um personagem único dentro da história do rock no Brasil, um pioneiro do punk em São Paulo que mantém um pé em suas raízes filosófico-musicais, enquanto mergulha de cabeça no mundo das celebridades e da publicidade, ganhando honestamente um bom dinheiro por incorporar um personagem – ele mesmo – e pelo talento de se comunicar bem com uma juventude menos óbvia. Contradição pura, mas que está pagando as suas contas, coisa que o Ratos de Porão não fez, exceto por alguns curtos períodos entre os anos 80 e 90.

Quem o conhece dentro do meio artístico e televisivo não hesita em rotulá-lo: é um cara legal, de bem com a vida e profissional correto e confiável – o que espantou muita gente. O punk da periferia e foi metalúrgico por um tempo atingiu alguns objetivos, ainda que por vias tortas. E nada disso afetou a sua integridade pessoal e musical. Quem o viu em ação em São Bernardo do Campo (ABC, na Grande São Paulo) no começo de junho é testemunha disso.

Ali, no Princípios Bar, no centro da cidade, um lugar diferente que está investindo no rock e no metal, mas sem o menor glamour de algumas casas mais “in” da Grande São Paulo, João Gordo e o Ratos de Porão fizeram o que sabem fazer e que lhes deu credibilidade musical: um show violento, pesadíssimo, velocíssimo e raivoso, o ótimo punk/hardcore/crossover/metal que conquistaram o respeito de músicos e público europeus, há muito distantes dos radicalismos infantis que ainda são identificáveis em certos nichos roqueiros brasileiros.

João Gordo frequenta a casa de apresentadoras de TV milionárias que, em circunstâncias normais, o desprezaria ou o ignoraria. E isso não o impede de sair correndo para ver uma banda podre (no bom sentido) em lugar podre (nem tão no bom sentido assim) no centro da cidade. Ou mesmo sairia correndo imediatamente para urrar e vociferar à frente do Ratos de Porão em um show nos limites da precariedade nos confins da zona leste ou em algum buraco da Grande São Paulo.

Ontem o show com Ratos de porão foi muito legal, agradecimentos aos organizadores, banda Bioface e Forka, e ao publico que tanto nos apoia!!! Obrigada.
Prika Amaral, guitarrista do Nervosa, e João Gordo, vocalista do Ratos de Porão, nos bastidores do Princípios Bar, em São Bernardo (FOTO: FACEBOOK DA BANDA NERVOSA)

Contradições à parte, a grande figura “radical” da música paulistana está conseguindo se sustentar de forma digna e honesta, mesmo abandonando a ideologia um tanto rasa que embalou a sua raiva nos anos 80. A língua ferina continua a mesma, assim como a simplicidade, a ira e a franqueza, bem como o gosto por música extrema e muito pesada.

A realidade socou-lhe o queixo e o jogou na vida comum? Não importa, porque não faz diferença. João Gordo continua sendo punk, se vestindo como um punk, falando como um punk e pensando como punk, com a diferença de que hoje é mais cínico, menos ingênuo e continua radical na medida exata em que não o transforme em um pateta, em que não ofenda a sua inteligência e em que não ultrapasse os limites da convivência com pessoas que outrora seriam “retratadas” em suas letras.

Os detratores terão muito mais motivos para odiá-lo e chamar de traidor – nada fora do normal para quem aguenta esse tipo de acusação e tentativas de agressão há 25 anos. Mas, pelo menos, agora esse pessoal já sabe quem paga as contas do traidor. E, para desgosto e inveja desse pessoal, o dinheiro chega limpo e de forma honesta.

Para piorar um pouco mais, João Gordo nem se dá ao trabalho de rir por último. Prefere vomitar as letras do Ratos de Porão, atuais e cada vez mais certeiras, enquanto os inimigos afundam no ressentimento. O traidor não venceu, apenas passou por cima.

Tudo o que sabemos sobre:

João GordoRatos de Porão

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.