Jeff Healey: blues com alma de guerreiro

Estadão

12 de abril de 2012 | 06h54

Marcelo Moreira

O lendário ator Patrick Swayze, o mocinho do filme romântico (e baba) “Ghost”, era um artista talentoso, mas nunca deu muita sorte na escolha de seus papéis. Teve de fazer bastante coisa ruim para conseguir chances em filmes menos ruins – e só teve reconhecimento de seu talento dramático perto do fim da vida, quando fez a elogiada série “The Beast”, inédita do Brasil, pouco antes de sua morte, em 2009, aos 57 anos.

Um dos filmes péssimos da carreira do ator é “Road House”, de 1989 – “Matador de Aluguel”, no Brasil, constantemente reprisado pela TV Globo nas madrugadas e à tarde. Ele faz um leão de chácara de uma boate barra pesada em uma cidadezinha do Meio Oeste dos Estados Unidos e tinha trabalho para limpar o lugar de tipos inconvenientes.

O filme e as atuações caricatas eram tão de baixa qualidade que a “banda” residente no cabaré acabou tendo um destaque inusitado fora dos Estados Unidos. O guitarrista e cantor era um jovem cego que tocava sentado com o instrumento no colo, como um lap steel (ou steel guitar). O rapaz mandava um hard rock poderoso, com uma banda bem afiada.

Jeff Healey, então com 23 anos, ganhou o mundo, apesar de tocar com certa frequência na Europa. O fiasco de “Road House” não o atingiu e logo seu nome passou a figurar nos principais festivais de blues e rock dos Estados Unidos como uma alternativa ao purismo de Robert Cray e Stevie Ray Vaughan (que morreria no ano seguinte, aos 35 anos).
“The Full Circle: The Live Anthology” é o mais recente lançamento de The Jeff Healey Band, e sai agora no Brasil pela ST2. Antes de mais nada, é um produto obrigatório para quem gosta de blues e de guitarra bem tocada.
A pegada inusitada de Healey é o seu grande trunfo. Ele transita com facilidade pelo rock, pelo jazz e pelo blues, executado peças intrincadas com suavidade e precisão raras vezes vista.

Apesar do nome “Anthology”, o CD duplo é o registro de apenas dois shows, mas que bastam para mostrar a qualidade do trabalho do guitarrista canadense. O primeiro disco traz um show excelente gravado no Montreal Jazz Festival de 1989, quando ele e a banda já estavam em ponto de bala – a releitura de “Roadhouse Blues”, dos Doors, é fascinante.

O disco 2 mostra Healey seis anos depois em outra cidade do Canadá. Mais maduro e mais eclético, mas não menos brilhante, ele detona no Hard Rock de Toronto, esbanjando técnica e feeling especialmente na versão blues pesada de “Yer Blues”, dos Beatles.

Como bônus na versão nacional, um DVD com uma apresentação do mesmo nível no St. Gallen Open Air, em 1991, festival suíço onde foi ovacionado ao executar com maestria “While My Guitar Gently Weeps”, outra dos Beatles.

Cego desde o primeiro ano de vida devido à um retinoblastoma (um tumor maligno da retina desenvolvido a partir dos retinoblastos), Jeff Healey começou a tocar aos três anos de idade com o instrumento no colo.

Aos sete já era considerado um fenômeno e aperfeiçoou sua forma de tocar tocando em bares de Toronto, sua cidade natal, desde a adolescência. Referência blueseira principalmente após a morte de Stevie Ray Vaughan, foi reverenciado por nomes como Eric Clapton, B.B. King, Buddy Guy e Robert Cray. De saúde frágil, morreu aos 41 anos de câncer no pulmão em 2008.

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