Japão resgata o Badlands, lenda do hard rock

Estadão

25 de dezembro de 2010 | 08h16

Estou repostando esse texto em razão de um pedido de um amigo querido que venera o vocalista Ray Gillen. No último sábado eu mostrei a ele uma raridade, “Black Sabbath – The Ray Gillen Years”, um bootleg (disco pirata não-oficial com material nunca antes divulgado) que praticamente foi incorporado à discografia da banda de Tony Iommi. Traz aquele que seria o CD “The Eternal Idol”, do Black Sabbath, com todas as músicas na voz de Gillen (que sairia antes do lançamento, substituído pelo competente Tony Martin, que regravou a voz em todas as músicas), mais seis registros ao vivo da turnê americana do Black Sabbath de 1986, quando o mesmo Gillen substituiu um Glenn Hughes devastado pela droga. Meu amigo ficou alucinado com a pérola, que lhe dei de presente. Inspirado pela voz excelente  de Ray Gillen, aqui vai a repostagem da ótima banda Badlands. (MARCELO MOREIRA)

Marcelo Moreira

Contradição das contradições: o Japão, talvez o país mais tecnológico que existe, ainda investe pesado no formato CD, em edições especiais e de luxo. É o caso do novo relançamento do álbum “Dusk”, nunca lançado pela banda norte-americana Badlands quando se sua gravação em 1993.

A edição é caprichada, com material de primeira tanto na mídia como na parte gráfica, além de a masterização em si ser a de qualidade japonesa – ainda a melhor do mundo para CDs.

Para colecionadores, é um item a ser considerado, mesmo que o preço seja muito salgado – dependendo da loja virtual, custará em torno de R$ 300, sem contar taxas e impostos cobrados no Brasil.

Mas o que chama a atenção mesmo é o investimento dos japoneses em CDs de bandas até certo ponto obscuras mesmo na Europa e nos Estados Unidos, como o Badlands.

Criado para ser um supergrupo de hard rock – supergrupo no conceito de reunir músicos já famosos e conhecidos por trabalhos anteriores -, teve bons resultados com o primeiro trabalho, “Badlands”, de 1989. O segundo, “Voodoo Highway”, de 1991, excelente, foi ignorado pelo público, apesar de boas vendas de ingressos na turnê norte-americana daquele ano.

“Dusk”, o projeto abortado, foi gravado em 1992, mas foi engavetado devido ao fim litigioso da banda no começo de 1993. O grupo foi fundada por Jake E. Lee (guitarra, ex-Ozzy Osbourne), Ray Gillen (vocal, ex-Black Sabbath) e Eric Singer (ex-Black Sabbath, Alice Cooper e Kiss, entre outros) em Los Angeles.

Gillen vinha de uma experiência frustrante com o Black Sabbath. Chamado às pressas no final de 1986 para substituir Glenn Hughes – afundado nas drogas e com a garganta lesionada por conta de uma briga com o empresário da banda na época -, acabou sendo convidado para gravar o álbum que viria a ser “Eternal Idol”.

Fez todo o trabalho e até ajudou nos arranjos de algumas músicas, mas acabou se desentendendo com Tony Iommi e abandonou o projeto, que foi finalizado pelo inglês Tony Martin, que gravaria outros quatro álbuns com o Sabbath. “Eternal Idol” saiu em 1987.

Depois de colaborar com o projeto Phenomena, de Tom e Mel Galley, juntou-se a Eric Singer, outro descontente com o trabalho com o Black Sabbath, e juntos contactaram Jake E. Lee, que ainda curtia a fama de ter tocado com Ozzy Osbourne.

“Badlands”, o primeiro álbum, vendeu bem e teve ótimos momentos, como “Dreams in the Dark” e “Winter’s Call”, esta uma pancada hard com o que de melhor o subgênero produziu. “High Wire” também foi um bom momento, com Lee inspirado. O baixo ficou a cargo de Greg Chaisson, bastante conhecido na cena hard californiana.

Apesar do sucesso, a química entre os músicos não era perfeita, ao mesmo tempo em que Singer revelava insatisfação com o relativo pouco dinheiro que o grupo fazia então. Não teve dúvidas: arrumou as malas e aceitou o convite de Gene Simmons para substituir Eric Carr, que morreu em novembro de 1991.

A solução foi convidar o amigo de todos Jeff Martin, vocalista do Racer X, banda que teve em sua formação, entre outros, o guitarrista Paul Gilbert e o baterista Scott Travis (atual Judas Priest). Martin também era ótimo baterista, tanto que ajudou diversos músicos como músico de estúdio.

Badlands opriginal: Chaisson (esq.), Lee, Singer e Gillen

“Voodoo Highway” é ótimo, com músicas bem feitas e puxando mais para o blues. As críticas não foram boas e vendeu muito pouco, o que gerou brigas intermináveis entre Lee e Gillen. No meio da turnê decidiram acabaram com o grupo, mas somente ao final dos compromissos.

Ray Gillen embarcou rapidamente em novo projeto, o Sun Red Sun, banda criada pelo guitarrista Al Romano e que tinha ainda o baixista Mike Starr (Alice in Chains) e o baterista Bobby Rondinelli (ex-Rainbow e Black Sabbath, entre outros). Só que não chegou a curtir o trabalho, pois morreu no final de 1993, em decorrência de complicações com a aids.

Jake E. Lee acabou sumindo de cena, trabalhando com produção musical. Desde então gravou com vários artistas, como convidado, e dois álbuns solo, o mais recente deles “Retraced”, que reúne releituras de vários clássicos de bandas dos anos 70.

Eric Singer tocou ativamente com o Kiss até 1996, quando a formação original do quarteto decidiu se reunir após a gravação do “MTV Unplugged”.

Mesmo irritado, não perdeu o contato com Gene Simmons e Paul Stanley, os chefes do Kiss, mas procurou seu próprio caminho. Formou o Union, com o o guitarrista Bruce Kulick (outro demitido do Kiss em 1996) e com vocalista e guitarrista John Corabi (ex-Motley Crue). Gravaram dois CDs de estúdio e um ao vivo.

Ao mesmo tempo, a mesma formação-base, com alguns convidados, tocava no Eric Singer Project, que era um Union menos sério, que tocava versões de clássicos do rock, tendo lançado um álbum de estúdio e outro ao vivo.

Por fim, Jeff Martin voltou ao Racer X após sair do Badlands, que gravava de forma esporádica nos anos 90. Também cantou com Paul Gilbert, Pat Travers (guitarrista de blues), The Plot (projeto que incluía Pete Way e Michael Schenker, do UFO) e com a banda norte-americana de blues Blindside Blues Band, do guitarrista Mike Onesko.

“Dusk”, o álbum abortado do Badlands, foi editado pela primeira vez, com a anuência dos ex-integrantes, em 1998 no Japão. Virou uma febre entre fãs de hard rock naquele país e motivou a reedição no ano seguinte e o lançamento na Europa. Lamentavelmente, nunca foi editado no Brasil.

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