James Cotton e as gaitas dão o tom na temporada abarrotada de blues

Estadão

01 de agosto de 2013 | 06h35

Marcelo Moreira

James Cotton mal conseguiu subir ao palco do Sesc Belenzinho, em São Paulo. Precisou da ajuda dos músicos da banda e de uma assistente. Teve dificuldades até para sentar. Quando colocou a gaita na boca, parecia um menino encantado por estar se apresentando para quase 800 pessoas em um país com pouca tradição blueseira – fato inversamente proporcional à qualidade dos músicos brasileiros do gênero.

O veterano bluesman norte-americano, ex-companheiro de ninguém menos do que Muddy Waters, fez duas apresentações na capital paulista antes de encerrar o 8º Festival Internacional de Blues de Ilha Comprida (litoral sul do Estado). Além de estar encantado pela receptividade do público, encantou a plateia com a simplicidade com que tocou e com a forma que resgatou o verdadeiro blues de Chicago.

Estar imóvel na cadeira aos 78 anos não foi impedimento para que um dos gaitistas mais importantes da história do blues moderno mostrasse sua técnica precisa e seu feeling assustador em clássicos eternos do blues. Com “I’ve Got My Mojo Working”, transformou a comedoria do Sesc em uma pista de dança, digna de um show de rock. Uma experiência bastante divertida e diferente para o sisudo bluesman, como ele mesmo mesmo mencionou ao final do show.

Cotton foi o grande ás de um mês dedicado ao blues, e justamente julho,considerado o mês do rock. Blues Etílicos, Sergio Duarte, Ivan Marcio, Thomas T. Love Jensen, Flávio Guimarães, Big Chico e o lançamento do novo álbum do guitarrista Nuno Mindelis deram o tom, mostrando ma vitalidade que há tempos o gênero não mostrava no Brasil.

James Cotton no Festival Internacional de Ilha Comprida

A situação promete melhorar ainda mais em agosto e em setembro, com um grande festival que pretende reunir três grandes gaitistas norte americanos pelo interior de São Paulo, com provável apoio do Sesc e organização do guitarrista Igor Prado, um dos grandes nomes do blues do Brasil.

A turnê West Coast Harp Legends é uma iniciativa que pretende trazer ao país gaitistas da Califórnia, que são menos tradicionalistas do que os blueseiros de Chicago, além de incorporar elementos de outros gêneros musicais. Estão confirmadas as presenças do excelente Rod Piazza, talvez o mais conhecido gaitista da atualidade, de Lynwood Slim, que é parceiro de Igor Prado, e Mitch Kashmar, tendo o próprio Prado e o extraordinário pianista brasileiro Ari Borger como banda de apoio. Já estão agendadas datas em Taubaté, Ribeirão Preto e Presidente Prudente.

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Enquanto o blues fervilha no interior de São Paulo, os músicos brasileiros continuam sendo aclamados no exterior, e com a dificuldade de sempre para adquirir o respeito do público – mesmo com todo o esforço que o Sesc faz para agendar apresentações, muitas delas gratuitas, em suas unidades.

Ari Borger e Igor Prado foram as vítimas da vez da falta de sensibilidade de um público alheio e desinteressado no Sesc Bom Retiro na última terça-feira. A dupla fez um ótimo show de 100 minutos na praça de convivência, mesmo incomodados pela imensa fila do restaurante – o projeto Bom Retiro Meio-Dia, obviamente, ocorre ao meio-dia. Na semana anterior, o gaitista e violonista Sergio Duarte e o baixista Marcos Klis sofreram para conseguir ser vistos por pouco mais de 20 pessoas, justamente por causa da gigantesca fila do restaurante que ficava entre o palco e os móveis destinados aos assentos.

Prado havia chegado na manhã daquela terça-feira da Itália, onde havia feito mais de dez shows com sua banda. Já Borger embarcaria horas depois para Cincinnatti, nos Estados Unidos, como um dos convidados de honra do Cinci Fest, o maior festival do mundo destinado ao piano blues. Ele seria uma das atrações principais, honra que somente ele, entre os brasileiros e sul-americanos, conseguiu. Infelizmente não tiveram a atenção merecida no Sesc Bom Retiro.

Igor Prado (esq.) e Ari Borger no Sesc Bom Retiro

“Ainda que não tenhamos atraído a atenção de muita gente, o show que fizemos foi divertido. O Sesc é fundamental na difusão de música de boa qualidade e no apoio aos músicos de todos os gêneros”, diz Ari Borger, empolgado com o bom momento que o blues vem passando no Brasil. “Não é um gênero musical genuíno do Brasil, o que talvez dificulte um pouco a aceitação, mas iniciativas como a do Sesc mostram que é possível oferecer boa música de forma acessível.”

Já Igor Prado está um pouco tenso com a agenda lotada e a responsabilidade de organizar e produzir a turnê dos gaitistas californianos, mas é outro que está feliz com o momento atual. “Existe um público que faz questão de ouvir blues e que prestigia os shows no Brasil. O sucesso do James Cotton é um exemplo, e o festival que trouxe John Mayall e Buddy Guy no primeiro semestre é outro. Nós músicos queremos tocar e hoje há condições para isso.”

Na apresentação do Sesc Bom Retiro Prado e Borger privilegiaram o blues tradicional dos anos 50 e 60, com arranjos acústicos inventivos e diferentes. Borger assombrou o público com sua versatilidade e domínio dos temas, muitos esbarrando nos mais puro jazz de New Orleans – não foi à toa, já que  pianista morou alguns anos naquela cidade.

 

Marcos Klis (esq.) e Sergio Duarte no Sesc Bom Retiro

Sergio Duarte e Marcos Klis também apostaram no tradicionalismo em sua apresentação no Sesc Bom Retiro. Acertaram em cheio ao privilegiar um repertório dos anos 40 e 50, além de clássicos históricos do gênero. É um trabalho diferente pra o gaitista, violonista e também cantor, mas que dará o tom de seu próprio CD, o terceiro, que está em fase de produção e gravação. “Sou um discípulo de James Cotton, cheguei a ser aluno dele, e foi natural mergulhar nas raízes do gênero. Nos meus trabalhos anteriores, com a banda Entidade Joe, fazia um blues mais moderno, em português. Estou animado com as novas possibilidades”, afirma Duarte.

 

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