Jack White lança disco solo com ecos de morte e nostalgia pela garagem

Estadão

25 de abril de 2012 | 19h25

ROBERTO NASCIMENTO – O Estado de S.Paulo

 Jack White - Reprodução

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Jack White

Mais de uma década após chegar ao cume do rock contemporâneo com sua colega Meg White, Jack ainda não perdeu a legitimidade. Tornou-se uma espécie de messias dos puristas, o cara em que sempre contam, na mesa do bar, para um exemplo de que o rock “não morreu”.

Colabora com ídolos de outrora, como a cantora Wanda Jackson, cujo disco produziu no ano passado, faz homenagens a outros, como Ennio Morricone, no disco Rome, e Hank Williams, no disco You Know That I Know, do ano passado.

Ao mesmo tempo, ainda sustenta expectativa nos círculos de rock independente toda vez que lança ou colabora em um novo projeto. Causa alvoroço, por exemplo, toda vez que dá as caras no festival indie South By Southwest, pois sua presença ainda é inspiração para milhares de bandas de garagem que almejam o sucesso do duo de Detroit.

Mas Jack White não vive de status e sim de suas sagazes e muitas vezes sinceras recombinações de fórmulas batidas. É um mestre delas.

Toca blues, sola com categoria, conhece profundamente a linguagem de produção, os instrumentos e equipamentos da época: um exemplo clássico do artista que não rompeu com seus mestres, mas remixou o que aprendeu e matem uma religiosa lealdade à lei de outrora. O resultado, uma espécie de vampiro caubói vista na capa do disco, personagem escapulido de um gibi de steampunk na era do Twitter, acaba de lançar um novo disco.

Blunderbuss, que está disponível para compras no Brasil através do iTunes, é o seu primeiro disco solo, tocado e produzido pelo próprio, forjado nos escombros do seu casamento com Karen Elson, e durante o luto de seu irmão mais velho.

“Eu estava escrevendo as notas do disco outro dia, e me parecia que tudo o que pensava tinha a ver com a morte. Por alguma razão, a morte esteve presente durante todas as etapas de composição”, contou Jack ao New York Times, no início do mês.

Mas Blunderbuss não soa fúnebre, e sim nostálgico em muitas partes pela sonoridade do início da carreira do músico. Parece que o herói do blues/ às do rock setentista que o guitarrista emula em suas outras bandas, os Raconteurs e o Dead Weather, não o satisfaz tanto quanto tocar os acordes escrachados e assistir Meg White acompanhá-los. Freedom at 21, por exemplo, soa perversamente semelhante a Seven Nation Army, o maior hit da banda: o riff da segunda é apenas deslocado, como se fosse um bilhetinho a Meg.

Sixteen Saltines deixa de lado o refinamento em troca da roupagem decupada que nos acostumamos a ouvir nos discos dos White Stripes. “Meg controlava a banda. Ela é a pessoa mais obstinada que já conheci e você nem quer saber por quê. Aquela banda foi a coisa mais difícil, mais importante e mais satisfatória que já fiz”, contou ao Times.

Blunderbuss não é, no entanto, apenas nostalgia pelos idos de White Blood Cells e Elephant. É também uma inteligente colagem de referências vintage, exemplo do excêntrico bom gosto de Jack White. É bom lembrar que esta curadoria retrô se estende além do estúdio, pois Jack mora, grava e gerencia seu selo Third Man em um prédio em Nashville, decorado com animais empalhados, uma torre Tesla e pinturas trompe-l’œil – além de passagens secretas.

Em Blunderbuss, seus caprichos folclóricos tomam forma de violinos, pianos semidesafinados, como os de um “saloon”, e outros ecos da época áurea da country music.

Em On and On and On, um órgão psicodélico é complementado por guitarra singela, que lembra Jimmy Page em Tangerine. Trash Tongue Talker é um blues shuffle a la Stones, cantado com ecos de Mick Jagger.

Mas o uso virtuoso de referências não faz de Blunderbuss um álbum completo, e Jack é longe de ser o único roqueiro e produtor hábil o suficiente para recriar atmosferas de outros tempos – vide o último disco de Dr. John, produzido por Dan Auerbach, dos Black Keys. O que dá força ao álbum é, então, a elogiável sinceridade do músico, que não tem medo de lançar mão de um clichê para se expressar. No caso de Jack White, funciona quase sempre.

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