Irmão mais novo ajuda a segurar a barra de Pete Townshend

Estadão

24 de abril de 2013 | 12h00

Gary Graff  – publicado originalmente no Brasil pelo site UOL Música

Ninguém condenaria Simon Townshend se ele abandonasse o “negócio da família”. Ele é o irmão caçula de Pete Townshend, guitarrista e principal letrista do The Who, uma das figuras mais exuberantes e lendárias do rock and roll. Quinze anos mais velho que Simon, Pete faz uma sombra considerável em cima do irmão –o que não deixa de ser uma perspectiva desencorajadora para um membro da família que quer seguir seus passos.

Apesar disso, o caçula, que desde os nove anos já estava nos vocais de apoio da ópera rock “Tommy” (1969), toca como guitarrista avulso do The Who e na banda solo do vocalista Roger Daltrey (desde 1996). Simon também coproduziu faixas da coletânea “Then and Now: 1964-2004”, tocou no disco “Endless Wire” (2006) e participou de álbuns solo do irmão e de Daltrey. Se o incomoda ser coadjuvante da história, ele não deixa transparecer.

Simon também investe em sua própria música: lançou cinco álbuns, o mais recente sendo “Looking Out Looking In” (2012). Apesar disso, não tem ilusão de comparar seu trabalho ao do irmão. “É claro que o The Who vai sempre aparecer por causa da minha relação familiar”, diz ele por telefone de um hotel em Nova York, durante a primeira fase da turnê do Who, “Quadrophenia and More”.

Simon observa com orgulho que já foi “promovido” para a frente do palco nos shows de “Quadrophenia and More”, canta uma música (“The Dirty Jobs”) e assumiu vários trechos e solos que seu irmão teria tocado. “Acho que aprendi muito nesses últimos 15 anos, além de praticar e fazer shows”, ele conta. “Dei um duro danado na minha carreira musical e estou me expressando melhor no palco agora”.

“Já aprendi como não invadir seu espaço [de Pete] e, ainda assim, sei me expressar através do instrumento para complementar o que ele faz. Também tem a ver com a experiência de tocarmos juntos há anos e conhecer as várias encarnações de sua música. Sem contar o elemento intuitivo, de sangue, de automaticamente gerar uma identificação”, teoriza.

Tim Barrett/Belgrafix/NYT

O guitarrista Simon Townshend, irmão de Pete Townshend do The Who

O guitarrista Simon Townshend, irmão de Pete Townshend do The Who

Incentivo familiar
Pete e Simon –além do irmão do meio, Paul– cresceram em Londres, onde o pai era saxofonista profissional e a mãe, cantora. Além da grande diferença de idade, os dois também foram criados de formas bem diferentes, como explica Simon: o mais velho era “entregue a alguma das tias” enquanto os pais trabalhavam (segundo o livro de memórias de Pete, ele apanhava nas casas delas).

Já com o mais novo, a coisa foi bem mais fácil. “Sempre vi minha mãe como uma rocha”, ele conta. “Imagino que porque estivesse mais velha, mais madura, embora tivesse sérios problemas com a bebida. Apesar disso, a minha infância, e a do Paul também, foram bem normais”.

De fato, a parte mais estranha dessa fase foi ver o irmão se tornar um astro internacional, o que complicou, e muito, as coisas para ele, que também tinha aspirações musicais. “A música sempre esteve no sangue, claro, mas quando se tem um irmão que fez o que o Pete fez… o que mais você vai querer?”, questiona ele com uma risada. “Não dava para querer ser contador, né?”

Depois de se arriscar algumas vezes com o The Who, inclusive fazendo uma ponta como o garoto do jornal no filme “Tommy” (1975), a carreira de Simon começou com “Sweet Sound” (1983), álbum que foi produzido por Pete –que também fez os vocais– e contou com Mark Brzezicki, do Big Country, na bateria. Os críticos notaram a semelhança com a voz do irmão, mas o disco não vendeu muito bem.

Ele continuou a fazer turnês e chegou a montar a Simon Townshend Band nos anos 80, combinando seu trabalho com alguns números do grupo do irmão mais famoso. Tocou em vários projetos de Pete, além de fazer parte da British Rock Symphony em 1999. Também fez amizade com Eddie Vedder, do Pearl Jam, com quem tocou em 2009, em Londres, uma versão de “The Real Me”, de “Quadrophenia” (1993).

Confiança no próprio taco
Já o recente disco “Looking Out Looking In” chega uma década depois do álbum anterior, “Simontownshendis” (2002) e, segundo Simon, saiu ganhando com a espera. “Eu mesmo me surpreendi com tudo o que consegui fazer nesse tempo”, conta o cantor e letrista, que produziu o disco sozinho e gravou no estúdio de casa, na Inglaterra, com o filho, Ben, na bateria.

“Desta vez percebi que podia confiar no meu próprio ouvido”, ele continua. “Sabia que faria um trabalho melhor que qualquer outro e foi uma experiência esclarecedora. Pensei: ‘Nossa, sou bom mesmo! Posso criar e pôr para tocar sabendo que o som é ótimo!’. Encontrei o meu próprio caminho, digamos assim”, conclui.

Simon conta que não demorou nada para compor as 11 faixas de “Looking Out Looking In”, embora algumas tenham levado mais tempo para se encaixar no disco. A música de abertura, “Forever and a Day”, foi feita há anos, mas reescrita e rearranjada; “Bed of Roses” é de quatro anos atrás e esperava uma chance de aparecer.

Com exceção do padrão de ritmo de “Make It”, que lembra “Won’t Get Fooled Again” (1971) do The Who –Simon jura que é coincidência– o álbum tem mais em comum com o trabalho solo de Pete do que com o de sua banda, e Simon encontra sua própria voz em canções que sugerem influências de Lennon & McCartney, Elvis Costello e Graham Parker.

“Eu cresci ao som do The Who”, ele prossegue, “mas também com muitos outros tipos de música, o melhor dos anos 60 e 70. Tanta coisa rolou naquela época! Ouvia todo tipo de coisa: Stevie Wonder, James Taylor, bandas tipo Genesis, The Clash, Jam. É claro que o meu som ia sair meio familiar, não?”.

No momento, Simon está ocupado com a turnê do The Who, mas planeja cair na estrada sozinho, abrindo para o Heart e talvez fazendo algumas apresentações nos festivais de verão. O filho prometeu continuar tocando com ele e, em meados deste ano, Simon pode até lançar outro disco, pois a fonte criativa que resultou em “Looking Out Looking In” não secou após sua conclusão e ele continuou produzindo.

“Acho que vai ser ainda melhor”, ele avisa. “Não vou forçar nada. Se vier alguma coisa, vou lá e escrevo. É assim que trabalho. Estou adorando o fato de poder fazer tudo sozinho, sem ter que contratar ninguém”, Simon conclui, “e, ao mesmo tempo, tocar com o The Who e voltar para as minhas coisas renovado e inspirado. Estou numa fase ótima, como nunca vivi antes”.

*Gary Graff é jornalista freelancer em Beverly Hills, Michigan

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