Integrantes do Ira! continuam vivendo e não aprendendo

Estadão

31 de julho de 2012 | 06h49

Marcelo Moreira

Quando a banda Ira! entrou no estúdio em 1986 para gravar o sucessor do surpreendente “Mudança de Comportamento”, do ano anterior, o rock nacional estava em ebulição. A cena que estourara quatro anos antes com o pop rock carioca evoluía muito rápido, e a competição estava mais acirrada do que nunca.

Os Titãs radicalizavam com “Cabeça Dinossauro”, obra-prima, e os Paralamas do Sucesso estavam inovando com o seminal “Selvagem?”, sem falar no sucesso estrondoso que RPM e Legião Urbana alcançavam. Para onde correr?

A decisão foi a melhor que poderia ser tomada em tais circunstâncias: sem a pretensão artística de lançar uma obra-prima e de “estabelecer novos patamares musicais”, o grupo paulistano apostou no que fazia de melhor: canções simples e sinceras tendo como base a guitarra diferente e inteligente do canhoto Edgard Scandurra. Nascia assim outra referência do rock nacional “Vivendo e Não Aprendendo”.

E eis que 26 anos depois o grupo parece ter esquecido os valiosos ensinamentos do título de seu álbum mais representativo, provavelmente o melhor de sua carreira. A tumultuada dissolução de 2007, que incluiu uma briga família pesada entre o vocalista Nasi e seu irmão, Ayrton Valadão Júnior, então empresário do Ira!, está longe de ser superada.

Às vésperas do lançamento da autobiografia de Nasi, “A Ira de Nasi”, o clima esquentou de novo, após recentes notícias de que o vocalista e seu irmão mais velho estavam começando a se entender e já cogitavam retirar as ações judiciais que ambos mantinham um contra o outro.

Desta vez o alvo de Nasi foi o ex-companheiro Scandurra. Antecipando alguns trechos do livro, o cantor afirmou que a banda acabou em 2007 porque o guitarrista nunca se recuperou do fato de ter sido traído por uma ex-noiva. Essa mulher, uma bailarina, teria tido um relacionamento com Nasi enquanto estava com Scandurra.

A banda nos bons tempos: o baixista Ricardo Gaspa e o baterista André Jung (em cima); o vocalista nasi e o guitarrista Edgard Scandurra (em baixo

Nasi confirmou a informação em entrevista à revista Veja São Paulo. Scandurra, na mesma revista, respondeu ironizando o ex-amigo, afirmando que o perdoou pela traição, e que o Ira! acabou por conta do comportamento errático e estranho de Nasi, que se achava um rockstar internacional, fazendo exigências absurdas para tocar em qualquer lugar, como camarim exclusivo e bebidas caras.

O pontapé final veio com uma baixaria, do mesmo nível da história da bailarina. “Nasi não se conforma com o fato, mas ele deveria me agradecer, já que, das supostas 2 mil mulheres que ele diz ter conquistado, pelo menos 1,8 mil só ficaram com ele por causa das letras das minhas músicas.”

Como se vê, cinco anos depois a história só piora, misturando baixarias, ressentimentos, ira e desejo juvenil de vingança e de constranger o adversário. Nasi diz que não descarta um dia reatar a amizade com Scandurra, mas descarta por completo um retorno do Ira! na entrevista á Veja São Paulo. Scandurra respondeu com outro pontapé: “No máximo aceitaria cumprimentá-lo em um evento qualquer. Nada mais do que isso.”

É desagradável que músicos experientes, integrantes de uma das cinco mais importantes e influentes bandas do rock nacional, enlameiem a marca Ira! dessa forma, como se 26 anos de carreira não significassem nada.

Exemplos para evitar esse tipo de coisa não faltam, dentro e fora do Brasil. Quem não se lembra das incontáveis brigas entre Paulo Ricardo, Luiz Schiavon e Fernando Deluqui no RPM? E as incontáveis baixarias envolvendo as separações de Black Sabbath, Motley Crue, Queensryche e muitos outros?

Ninguém ganhou com o episódio. Viveram e vivenciaram milhares de experiências, mas parece que não aprenderam o suficiente naquilo que realmente importava.

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