Instrumental brasileiro: quando os instrumentos falam por si

Estadão

04 de novembro de 2010 | 16h31

Pedro Antunes

Quando a guitarra de João Victor soou a última nota e os gêmeos Thiago e Rodrigo Correia descansaram seus baixo e bateria, respectivamente, o trio de recifenses se viu diante de outro dilema: resumir em algumas palavras uma música sem letra.

A situação ocorreu no fim do ano passado, na Praia de Catuama, no litoral norte de Pernambuco. E a resposta estava ali mesmo. O nome escolhido para a canção recém-criada, para eles, não poderia ser outro que não “Catuama Beach”.

Os três amigos de 23 anos, do grupo Epcos, fazem parte de uma nova cena de música instrumental no Brasil. Eles e outras 19 bandas terão a oportunidade de mostrar que as letras podem não ser tão necessárias. Começa hoje a terceira edição do festival PIB, Produto Instrumental Bruto, que, até domingo, irá realizar cinco noites de muita música.

As quatro primeiras serão no CB Bar, na Barra Funda, e a quinta, na Casa das Caldeiras, em Perdizes. No último dia, haverá, ainda, oficinas gratuitas que relacionam a música instrumental a outras atividades, como artes plásticas, cênicas e audiovisual.

Curadora e coordenadora geral do PIB, a paulista Inti Queiroz conta que, nesses três anos de festival, a música instrumental passou a encontrar seu espaço no gosto do público geral. Grupos como Pata de Elefante, de Porto Alegre, e Macaco Bong, de Cuiabá, hoje já começam a ser reconhecidos.

De tal modo que os cuiabanos tocaram no festival SWU, em Itu, no mês passado, e fizeram um show que impressionou. Para alguns, foi um dos melhores entre os brasileiros. Uma importante constatação, considerando que dividiram as atenções com Los Hermanos, Jota Quest, Capital Inicial e Otto.

Segundo Inti, neste ano, foram 142 inscrições, desde a última edição do PIB, em 2009. Nesta 3ª edição, há bandas de Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio e São Paulo. A primeira versão do festival, no Sesc Pompeia, teve 12 apresentações. Este ano, serão 20. “Foi uma surpresa”, diz a curadora. Ela conta que a qualidade dos trabalhos também surpreendeu. “Em alguns casos, tivemos de ouvir sete vezes o mesmo CD para chegar a uma decisão”.

Cada noite contará com a apresentação de três novas bandas, que vão duelar pelo voto de dois jurados e do público. A vencedora participará do próximo festival, como banda-madrinha. As campeãs do ano passado fecham a noite. Foi o que ocorreu com os cariocas do Fantasmagore.

No ano passado, eles venceram o Macaco Bong. “Foi surpreendente”, lembra a curadora do festival. “Nós não esperávamos isso”, completa Arthur Bezerra, guitarrista do quarteto. Toda essa surpresa deve-se ao fato de que o show que o Fantasmagore fez no PIB no ano passado foi o primeiro a ser agendado pela banda, criada em 2008

“Abriu algumas portas para a gente. O festival também mostrou outras bandas que podem sobreviver com uma proposta instrumental”, diz Bezerra. O guitarrista conta que, no início, a ideia era ter um vocalista, um front-man. As primeiras músicas, aliás, tinham espaço para a entrada da letra. “Mas os arranjos começaram a se bastar”. E eles entraram no mundo instrumental.

A história é semelhante à do quarteto Aeromoças e Tenistas Russas, que, apesar do nome, é formada por quatro marmanjos estudantes da faculdade de Imagem e Som, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). A proposta da banda é fugir do convencional. Daí, a falsa propaganda do nome do grupo.

 “Acho que algumas pessoas ficam decepcionadas quando subimos ao palco ”, brinca Thiago Hard, guitarrista e saxofonista da banda. “No nosso caso, fazer música instrumental se mostrou muito mais genuíno. E as nossas letras eram de qualidade bem questionáveis”, destaca. Propositalmente ou não, as bandas que começam a se apresentar hoje no PIB revelam uma interessante cena musical, na qual os instrumentos falam por si. 

PROGRAMAÇÃO

  (4/11) – CB BAR

Hellfishes (Curitiba-PR)
Kozmic Gorillas (Londrina-PR)
Mullet Monster Mafia (Piracicaba-SP)
Banda madrinha: Retrofoguetes (Salvador-BA)

 (5/11) – CB BAR

Bufalo (São Bernardo do Campo – SP)
Epcos (Recife-PE)
Huey (São Paulo-SP)
Banda madrinha: Fantasmagore (Rio de Janeiro-RJ)

 (6/11) – CB BAR

Discotiki (São Paulo-SP)
Martinez (São Paulo-SP)
Três Cruzeiros (São Paulo-SP)
Banda madrinha: SaunoFlex (São Paulo-SP)

(7/11) – CASA DAS CALDEIRAS

Astronauta Pinguim (Porto Alegre-RS)
Groove Groove (São Paulo-SP)
Pé na Cozinha (São Paulo-SP)
Wash! (São Paulo-SP)

Serviço:

Festival PIB – Dias 4/11, 5/11 e 6/11. CB Bar. R. Brigadeiro Galvão, 871, Barra Funda. Às 20h20. R$ 20; dia 7/11. Casa das Caldeiras. Av. Francisco Matarazzo, 2000, Perdizes. Às 17h30. Grátis. Tel.: 3873-6696

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