Inspirado e criativo, Nasi retorna aliviado ao rock'n'roll

Estadão

23 de novembro de 2012 | 07h00

Marcelo Moreira

O cantor furioso está mais sensível e mais irônico, só que a ira ainda está lá. Marcos Valadão Rodolfo, o Nasi, a voz que marcou a banda Ira! por 27 anos, está prestes a lançar seu novo CD, “Perigoso”, após uma temporada movimentada divulgando a sua polêmica autobiografia.

Como degustação, colocou no site da gravadora Trama seis músicas para serem apreciadas, sem que possam ser baixadas. A prévia do material já permite dizer que será o seu melhor álbum solo e melhor trabalho neste século.
As seis músicas mostram um cantor mais maduro e seguro, com pleno domínio de suas possibilidades e consciente de seus limites vocais. O resultado são faixas interessantes e vigorosas, que mostram Nasi relaxado e curtindo.

Nasi aprofunda as suas raízes roqueiras e blueseiras, algo quer estava bem distante dos últimos trabalhos do Ira!, sem inventar ou recorrer a ritmos como rap e hip hop, os quais aprecia bastante.

“Perigoso” é um country blues safado e bem construído, com violões que remetem ao melhor de Nashville e dos confins do Mississippi. O cantor abusa da ironia em uma letra bem sacada. “Tudo Bem” parece retirada de um algum combo de funk-soul dos anos 70.

Nasi (foto: Eduardo Nicolau/AE)

O trabalho de guitarras é o destaque, conduzindo uma melodia pegajosa e cativante, acompanhado por uma linha de baixo forte e insinuante. Candidatíssima a hit e a ser a música de trabalho para as rádios e o mercado.

“Ori” é um rock mais denso, quase hard, com baixo marcante e pesado e guitarras inteligentes e igualmente pesadas, lembrando alguns trabalhos dos Rolling Stones da segunda metade dos anos 70, ou mesmo a boa fase dos Faces. O refrão traz uma frase em um dialeto africado (seria iorubá?), “ori lê ayê, axeô” (ou mais ou menos isso).

“Não Vejo Mais Nada em Você” é uma grande homenagem a São Paulo, com referências a locais e estabelecimentos comerciais frequentado pelo músico nos anos 80.

É uma canção de amor amarga, que funde as imagens da cidade desaparecida com a do antigo amor que se foi – e que, pelo jeito, sumiu para sempre. A melancolia da faixa – especialmente pelos timbres da guitarra e pelos violões soturnos – traz um pouco de referências do trabalho solo de Paul Weller, cantor e guitarrista inglês que foi a voz da seminal banda The Jam.

A influência do funk moderno ressurge em “Feitiço da Rua 23”, com um baixo marcante e repetitivo e uma som de guitarra à la Ira! como pano de fundo, enquanto o vocal recupera o clima do pop rock nacional dos anos 70, ao estilo roberto Carlos “em tempos de aventura”.

A última faixa é um gostoso boogie woogie, com direito a um piano de cabaré/saloon bem sacado e mais uma vez um trabalho inusitado de guitarras e violões, em ótima combinação.

Nasi recuperou o gosto pela música e está inspirado e mergulha cada vez mais no rock’n’roll, distanciando-se cada vez mais da veia pop que marcou os mais recentes álbuns do Ira!. “Perigoso” chegará às lojas em dezembro pela gravadora Coqueiro Verde.

Ouça as primeiras músicas do novo trabalho de Nasi clicando aqui.

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