Inocentes: 30 anos de punk, revolta e diversão

Estadão

29 de novembro de 2011 | 06h43

Marcelo Moreira

Velocidade, urgência, ferocidade e inteligência, tudo ao mesmo tempo e feito para durar apenas algum tempinho, o suficiente para passar a mensagem e, quem sabe, marcar épica. O tempinho já dura 30 anos. E a banda punk paulistana Inocentes tinha ambição de entrar para a história. O tempo foi generoso e o quarteto continua fazendo história.

Enquanto o Cólera radicaliza no discurso, o Ratos de Porão radicalizava no peso e no barulho e os Garotos Podres ironizavam os problemas político-econômicos do país, os Inocentes enveredaram por um caminho mais alternativo: manteve a raiva e a crítica social, mas nunca soou panfletário, preferindo os temas cotidianos. Ficou menos datado, e por isso ainda é possível ver a banda tocando ali na esquina, ou em um festival em Goiânia.

O baixista e vocalista Clemente Nascimento, único remanescente da formação original, percebeu que havia uma oportunidade interessante para ressaltar o quanto as letras e a atitude dos Inocentes encontram, de certa forma, paralelo e espaço em pleno século XXI.

Uma das formações dos Inocentes, com Clemente à frente

O resultado é a reedição de três importantes trabalhos da banda neste ano para comemorar os 30 anos de fundação e de trabalho ininterrupto dos Inocentes. As reedições enfocam os álbuns lançados pela Warner, entre 1986 e 1989.
Podem não ser os melhores da discografia – o que é bastante discutível, já que são muito bons –, mas representam fielmente o que eram os Inocentes em um momento de afirmação do chamado rock nacional.

“Adeus Carne” e “Inocentes” (o polêmico álbum que traz na capa os integrantes nus, com tarjas pretas nos locais estratégicos) recebem agora tratamento melhor na masterização e na mixagem. Nada que altere o som cru e urgente do grupo. Destaque para “Pátria Amada”, que abusa da ironia e que carrega o álbum “Adeus Carne”.

“Inocentes” foi produzido por Roberto Frejat, guitarrista do Barão Vermelho. O som pode estar um pouco mais polido, mas as letras são afiadas e inteligentes, revelando maturidade sonora e lírica, como “Animal Urbano” e “A Lei do Cão”.

A pérola do pacote é cronologicamente o primeiro, “Pânico em SP”, clássico EP do punk nacional, com sua faixa-título que se transformou em hino na cidade de São Paulo. Lançado em 1986 e produzido por Branco Mello, dos Titãs, colocou a banda no mapa da mídia e impulsionou a carreira do quarteto.

Capa do nova versão de "Pânico em SP"

Pena que a mesma Warner tinha no time os Titãs, muito mais pop e acessível, mesmo com o lançamento meses depois de “Cabeça Dinossauro”, a pancada do então octeto no mercado musical. “Houve uma clara preferência pelo que poderia ser mais rentável ou acessível. A concorrência pode ter sido cruel para nós, mas isso não foi motivo para nos desanimar.Estamos até hoje tocando e gravando”, diz Clemente.

A reedição de “Pânico em SP” traz as quatro faixas originais mais seis músicas inéditas, gravadas para esta edição que comemora os 25 anos de seu lançamento. “Sugeri esse pacote à Warner em razão da importância dos lançamentos e também das própria marca que atingimos: 30 anos de carreira e fundação. Somos mais ‘antigos’ que qualquer banda do rock nacional”, brinca o baixista.

A nova versão do clássico EP evidencia as marcas do tempo entre os dois repertórios, mas ao mesmo tempo surpreende ao revelar conexões interessantes entre as duas “eras”, especialmente a pancada “Vermes”, mostrando que Clemente está atento, mas conectado ao ideário que fez a banda surgir em 1981.

Os Inocentes estão mais ativos do que nunca. Tocam em breve no Rio de Janeiro e no dia 10 de dezembro serão a atração principal de um festival de música alternativa em Suzano, na Grande São Paulo. E é bom lembrar que Clemente ainda faz parte da atual formação da banda brasiliense Plebe Rude, o que ajuda a congestionar ainda mais sua agenda.

Polêmica capa do CD "Inocentes"

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