Infelizmente, a MTV atual não deixará saudade

Estadão

11 de junho de 2013 | 07h00

Marcelo Moreira

Estão mais fortes os boatos de que a MTV brasileira acaba até o final do ano, podendo ser vendida a outra empresa, que mudaria o formato do canal e o nome, ou simplesmente sumiria do mapa sem deixar vestígios. Seu fim estaria ligado á crise financeira-administrativa que atinge o grupo editorial Abril.

Há algum tempo o fim da emissora é vaticinado por especialistas de mercado. O que foi uma grande ideia, surgida no começo dos anos 90 no Brasil, submergiu à crise editorial do mercado jornalístico – com a diminuição de publicidade -, e com a evidente falta conteúdo e direção que acometeu seus diretores.

Deixando um pouco a crise do mercado editorial e de jornalismo de lado, o que se coloca neste momento é se a MTV brasileira, como ela existe hoje, ainda faz sentido permanecer na ativa.

De plataforma necessária para novos artistas e emissora na vanguarda na identificação de novas tendências pop, a emissora caiu na quase irrelevância após mais de 20 anos de atividades. Deixou de ser citada por músicos, cada vez menos espectadores lembram de qualquer coisa relevante que tenha acontecido na MTV nos últimos meses.

A tentação de buscar explicações simplistas e imediatistas para o definhamento da emissora é grande, mas não dá para deixar de constatar: a MTV começou a se perder quando deixou a música em segundo plano e esqueceu para quem estava falando. A busca frenética de uma programação para agradar ao “público jovem”, fosse esse qual fosse, desnorteou a política editorial da empresa, que perdeu seus antigos espectadores e não agregou novos.

A música deixou de ser o centro das atenções. Uma série de games show e programetes variados com temas estapafúrdios povoaram a grade da programação da emissora e espantou o público.

Os clipes rarearam, programas de cunho jornalístico, onde eram apresentadas novidades e notícias sobre artistas nacionais e estrangeiros, sumiram e até mesmo as marcas registradas da emissora, os especiais com apresentações acústicas e ao vivo, foram enterrados. Programas de entrevistas, mesmo os mais polêmicos, como o de João Gordo, foram escanteados em prol de gincanas televisivas de gosto duvidoso. O que sobrou? Um programa sobre sexo com jeito blasé exibido nas madrugadas?

A MTV abandonou o seu público primordial, aquele para a qual foi destinado: as pessoas que gostam de música pop e de rock, independentemente da faixa etária. Quem gosta de música passou, recentemente, a assistir o canais Multishow (canal 42 da NET) e o BIS (canal 112 da NET), sendo este último uma pérola da TV brasileira, com a exibição contínua de shows inteiros, sejam novos ou antigos.

Até que ponto a internet corroeu a credibilidade da MTV? Até que ponto o YouTube torpedeou a emissora? Ainda não é possível medir, mas a MTV era um verdadeiro canhão, com uma grande gama de alternativas para enfrentar, com certa folga, eventuais ataques da internet. Entretanto, foi se afundando no lamaçal da busca desenfreada pelo público ideal daquela semana, formatando e reformatando sua programação de acordo com os ventos momentâneos.

As poucas boas ideias ficaram soterradas em meio a sapiências igualmente momentâneas, com o bom conteúdo que ainda restava diluído em uma programação sem foco e de gosto duvidoso. Resumindo, que gostava de música não tinha nenhum motivo para assistir qualquer programa.

Foram-se os tempos de Fúria Metal, Yo Rap, de vida inteligente e de informação com um mínimo de qualidade e de conteúdo. Sem uma carteira sólida de anunciantes, a MTV claudicou em busca de patrocinadores de ocasião e sem identidade com o público que gosta de música – jovem ou mais velho. A emissora abdicou de sua história em prol de uma de uma programação instantânea, de conteúdo raso e rápido. Perdeu o que tinha e não atingiu o que jamais teve.l

Será uma perda grande para o mundo do entretenimento nacional, não tato pelo que representa hoje, mas que poderia ter representando no século XXI. Talvez não faça falta – não do jeito que está -, mas, se vier a acabar, será o fim de uma era interessante da cultura pop brasileira.

 

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