Imagine Lennon revisitado por Herbie Hancock

Estadão

26 de outubro de 2010 | 08h21

 João Marcos Coelho – especial para O Estado de S. Paulo

As aparências às vezes enganam. O CD “The Imagine Project”, do pianista Herbie Hancock, construído em torno da clássica canção de John Lennon, é um verdadeiro caleidoscópio geográfico-musical. Participam das dez faixas cantores e instrumentistas de todos os cantos do planeta.

Apesar de a mensagem pacifista de Lennon embutir certa disposição de luta e/ou denúncia ao pregar contra a religião e a propriedade, Hancock adocica o mote do mais ativista dos Beatles: “Não é um disco de protesto, mas de esperança”, repete várias vezes numa longa entrevista a uma rádio norte-americana. A ambiciosa gravação não se esgota no CD lançado recentemente no mercado internacional: em breve, um DVD-documentário mostrará o making of das gravações de todas as canções.

Aos 70 anos, a personalidade do ex-pianista do mágico quinteto do trompetista Miles Davis nos anos 1960 anda cada vez mais parecida com a de outro mago da música norte-americana, o múltiplo Quincy Jones. Ele pouco toca, de fato, em Imagine. Reserva-se o luxuoso porém obscuro papel de sideman.

As estrelas são os convidados especiais. E, como faz de doze anos para cá, desde “Gershwin World” (1998) e passando por “Possibilities” (2005), a listagem dos participantes parece um verdadeiro ‘quem é quem’ da música pop internacional.

Nada contra. Até porque a sofisticação musical e o imenso bom gosto de Hancock escorrem para os convidados, levando-os a performances algumas vezes acima do nível que lhes construiu a fama.

Como um feiticeiro, mistura em seu caldeirão elementos tão díspares quanto o guitarrista Jeff Beck; a voz excepcional da cantora Oumou Sangare, nascida no Mali às margens do rio Níger; músicos experimentados de jazz como o percussionista Alex Acuña ou o tecladista Larry Goldings pilotando um Hammond B-3 ou Marcus Miller no baixo; e os cinco músicos do grupo congolês Konono nº 1. Tudo isso só na música-fonte do projeto, Imagine, que soa ora em branco e preto, ora como um imenso arco-íris. Impactante. belo. adocicado, como imaginou Hancock.

Cada uma das nove faixas restantes é, de fato, um projeto orgânico. “Don’t give up”, o clássico de Peter Gabriel, destaca Pink e John Legend nos vocais.

Outro clássico, desta vez de Bob Dylan, “The times, they are a changing”, é quem sabe a mais luxuosa das faixas, pois inclui os irlandeses do The Chieftains, Toumani Diabete (do Mali) e Manu Katché, da Costa do Marfim, para ficar só nos mais conhecidos. Hancock faz até um curto mas delicioso improviso no finalzinho.

Herbie Hancock, um dos monstros do jazz atual (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Haja espaço para esmiuçar Imagine faixa a faixa. Mas não dá pra esquecer da ótima Céu, responsável por uma correta versão de Tempo de Amor, da dupla Baden e Vinicius, gravada em São Paulo, com Hancock ao lado de Rodrigo Campos na percussão, Curumin na bateria, Lucas Martins no baixo elétrico e Larry Klein nos teclados.

Ou então do rockstar colombiano Juanes na contagiante La Tierra, de Juan Esteban Aristizabal. Mas a performance mais inesperada – e excepcional – é Tamatant Tilay/Exodus, em que os destaques são o grupo tuareg do deserto do sul do Saara Tinariwen, o cantor K’naan, da Somália, e os norte-americanos roqueiros do Los Lobos. O clássico reggae de Bob Marley entra aí sem esforço, com muita ginga.

É difícil escolher qual a melhor entre as três faixas finais, cada uma mais instigante que a anterior. A começar do clássico dos Beatles Tomorrow never knows, onde destacam-se a guitarra e o vocal de Dave Matthews.

James Morrison está simplesmente genial em “A Change is Gonna Come”, de Sam Cooke, o rei do soul. Aqui o grupo que o acompanha é mais ‘normal’, digamos: além de Hancock ao piano, Vinnie Colaiuta na bateria, Dean Parks na guitarra, Tal Wilkenfeld no baixo e o brasileiro Paulinho da Costa na percussão.

Excepcionais os comentários pianísticos de Hancock às inflexões de Morrison. O longo improviso do piano vai fazer muitos se lembrarem de como ele era fantástico tocando jazz. Quatro minutos de puro encantamento. Certamente John Lennon teria gostado muito desta riquíssima aventura musical conduzida pelo mago Herbie Hancock