'Images and Words': a obra que definiu o prog metal faz 20 anos

Estadão

10 de agosto de 2012 | 06h42

Marcelo Moreira

São muito poucos os artistas que podem se orgulhar de terem criado ou definido com seu som um gênero ou subgênero musical, especialmente dentro do rock. O caso mais emblemático talvez seja o Black Sabbath, tido pela maioria dos críticos e dos fãs como os criadores e “definidores” do heavy metal.

O Dream Theater conseguiu a proeza ao praticamente se tornar sinônimo de metal progressivo – ou prog metal – no comecinho dos anos 90. E o som que definiu o “novo” subgênero foi a obra-prima “Images and Words”, o segundo trabalho da banda, cujo lançamento ocorreu há 20 anos.

O quinteto norte-americano não inventou o prog metal. Bandas importantes e ótimas como Queensryche e Fates Warning já misturavam o som pesado com os fundamentos básicos do rock progressivo ainda em 1985, mas ninguém à época – e nos cinco anos seguintes – levou a sério o termo prog metal (que já existia) e atentou para o “surgimento” do subgênero.

Coube ao Dream Theater levai mais adiante o som do Queensryche com adição inteligente e complexa dos teclados para dar uma cara nova ao heavy metal que se fazia em 1992, então acossado pelo famigerado grunge.
As apostas na época eram de que o hard rock e o metal oitentista seriam atropelados pelas bandas de Seattle e enterrados definitivamente. Esse pessoal, no entanto, só não contava com a chegada de “Images and Words”, que já nasceu clássico.

Os ecos do prog metal apareceram de forma não tão explícita no primeiro álbum, “When Dream and Day Unite”, de 1989. Os teclados de Kevin Moore foram usados com parcimônia, dando lugar para o peso de camadas de guitarras de John Petrucci e todo o seu virtuosismo.

As guitarras predominavam, mas todas as características estavam lá, especialmente na longa suíte “The Killing Hand”, na ótima “A Fortune in Lies” e na instrumental “Ytse Jam”.

Nos dois anos de gestação de “Images and Words” muita coisa mudou. O pouco carismático vocalista Charlie Dominici foi dispensado e substituído por um cantor mais versátil, com mais recursos e com experiência. O canadense James LaBrie, ex-Winter Rose, radicalizou o som do Dream Theater e expandiu as possibilidades da banda. Suas características vocais casaram perfeitamente com o novo direcionamento da banda.

Capa de 'Images and Words'

O teclados de Moore ganharam importância, assim como suas composições. Ele assinou sozinho três faixas – simplesmente dois dos três maiores sucessos do álbum: a maravilhosa “Surrounded” e o maior (e único, segundo piada interna da banda) hit do Dream Theater, obrigatório em todos os shows, “Pull Me Under”. Sua trinca é completada pela delicada balada “Wait for Sleep”.

Criticado por gritar demais nos shows, com o tempo LaBrie foi entrando nos eixos, mas seu trabalho no álbum foi bastante elogiado, não só pelo timbre diferente de sua voz, mas pela capacidade de se manter afinado mesmo em passagens com tons muito altos em músicas intrincadas.

“Images and Words” ainda contem uma obra-prima, a mágica suíte “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper”, de John Petrucci, que foi o ponto de partida do conceitual álbum duplo “Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory”, lançado em 2000. O terceiro grande sucesso do álbum também é de autoria de Petrucci, a expressiva balada “Another Day”.

Completam o álbum a complexa e totalmente progressiva “Take the Time”, a única assinada por todos os membros da banda, a pesada e enigmática “Under the Glass Moon”, outra de Petrucci, e uma composição do baixista John Myung, “Learning to Live”, com uma pegada mais pop. O baterista Mike Portnoy, por muitos anos o grande chefe da banda, só viria a compor compulsivamente mais tarde, acentuando ainda mais a veia progressiva do Dream Theater.

Dream Theater em 1992, na capa do single 'Another Day': a partir da esq., Moore, Petrucci, LaBrie, Myung e Portnoy

“Pull Me Under” e “Another Day” tiveram seus clipes exibidos exaustivamente nas MTVs de todo o mundo e impulsionaram as boas vendas do álbum entre 1992 e 1993, cimentando o caminho para o também excelente “Awake”, de 1994.

A consolidação do Dream Theater foi a deixa para o surgimento de toda uma geração de metal progressivo, indo desde os norte-americanos do Symphony X até as estupendas bandas escandinavas, como Green Carnation, Magic Pie e Circus Maximus (todas da Noruega), Pain of Salvation, Evergrey e Flower Kings (todas da Suécia), Riverside e Qidam (ambas da Polônia), e até mesmo, em determinados aspectos, Stratovarius e Amorphis (Finlândia). O legado e a importância de “Images and Words” são impossíveis de serem medidos.