Ian Stewart, o stone que nunca saiu na foto

Estadão

24 de maio de 2011 | 07h27

Roberto Nascimento

Tudo começou antes de um show da banda The ABC & D of Boogie Woogie, um dos projetos paralelos de Charlie Watts. Num papo corriqueiro, o lendário baterista dos Stones perguntou ao pianista Ben Waters o que havia feito no fim de semana.

Ben respondeu que havia reservado horário de estúdio para gravar um disco em homenagem a Ian Stewart, pianista dos Stones que fora cortado da formação inicial da banda, mas permanecera ativo, gravando com o grupo até sua morte, em 1985.

Charlie Watts (sentado) e alguns dos músicos que participara, do tributo a Ian Stewart (foto: DIVULGAÇÃO)

“Charlie indicou que queria tocar no disco porque Stu fora um de seus grandes amigos. E foi aí que percebi que precisaria de um estúdio maior. Então liguei para o Jools Holland (cantor e apresentador de TV) e perguntei se ele poderia me alugar o dele. Ele disse que não, pois pelo Stu faria isso de graça”, conta Ben, que aos 20 já tinha absorvido o boogie woogie de Stewart quando foi convocado para ocupar o lugar do finado mestre em sua banda, os Rocket 88s.

Holland resolveu participar com uma canja em uma música de Jimmy Yancey, uma das principais influências de Stu.
Mas o time ainda estava incompleto. “Quando liguei para o escritório dos Stones para avisar que Charlie participaria, Ron Wood disse que viria também.”

Foto rara de Ian Stewart no início dos anos 60

Charlie sugeriu que o pianista avisasse os outros Stones. Alguns bilhetes e Bill Wyman, Keith Richards e Mick Jagger estavam a bordo. “Fazia anos que eu queria agradecer a ele por ser uma influência tão importante para mim. Mas o disco foi além. Mesmo que ele não tenha sido parte visual do grupo, sempre foi parte da banda, e os Stones gostavam muito dele”, conta Ben sobre seu ídolo.

Stewart foi cortado dos Stones em 1962 pelo produtor Andrew Loog Oldham, que achava que por ser mais velho o pianista não se encaixava na imagem do grupo. Oldham também achava que seis Stones eram demais e prejudicariam o marketing.

Assim, Stewart aceitou a decisão, virou manager de turnês e entrou para a história como o sexto Stone, deixando seus acordes em clássicos como Honky Tonk Women, Brown Sugar e It’s Only Rock and Roll (but I Like it).

“Ele não ficou bravo. Em entrevista pouco antes de sua morte, disse que Andrew Oldham estava certo. Seria impossível fazer seis caras saírem bem na capa de um disco”, conta Ben. “Mas também acho que ele não gostava dos holofotes. Ele teve o melhor dos dois mundos: tocou na maior banda de rock e foi suficientemente anônimo para tomar uma cerveja sem ser incomodado.”

Os Rolling Stones no início de 1963, já sem Ian Stewart na formação (FOTO REPRODUCAO)

O boogie woogie de raiz, arte de Fats Domino, Big Joe Turner e Little Richard, era a especialidade de Stewart, que teve uma de suas apresentações incluídas no disco. É um dos melhores momentos de Boogie for Stu e um exemplo de como Stewart, fazendo jus à herança de seus mestres, conseguia impulsionar uma banda inteira com a simplicidade de seu piano. Em Watch the River Flow, a única que traz todos os Stones juntos, Mick Jagger volta às raízes e canta o blues como se 40 anos não tivessem passado.

A participação inusitada fica por conta da roqueira Poly Jean Harvey, prima de Ben. “A primeira vez que vi Stu foi no noivado dos meus tios, pais de Poly. Stu passava muito tempo na casa dela e ela o conhecia melhor do que eu.”

PJ Harvey faz ótima versão de Lonely Avenue com backing vocals etéreos e interpretação tristonha, dando a impressão de que a distância entre o boogie woogie e o rock contemporâneo não é tão grande quanto parece.

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