Hudson Cadorini abandona o rock e retorna de vez à música sertaneja

Estadão

01 de setembro de 2011 | 06h36

Marcelo Moreira

Quando a música “Deep Van Riff” vazou na internet, tempos atrás, chamou bastante a atenção de muita gente no rock. Composição instrumental bem construída, estrutura melódica bem definida e de bom gosto e solos muito bons.

O problema é que o meio roqueiro ficou em choque quando descobriu o autor da música: Hudson Cadorini, guitarrista paulista com larga experiência musical e bom cartaz na cena roqueira de Limeira e da região e Campinas. Só que, ao mesmo tempo, ele militava na dupla sertaneja Edson & Hudson, que provoca náuseas em grande parte dos roqueiros.

“Deep Van Riff” é a melhor música do álbum “Turbination”, de 2007, álbum solo de Hudson Cadorini, que passou a assinar assim em seu projeto roqueiro. Misturando heavy metal e hard rock, o álbum teve boa aceitação, apesar dos preconceitos evidentes e até certo ponto compreensíveis.

A versão roqueira de Hudson Cadorini

Pois não é que, após dois anos separado do irmão Edson para tentar uma carreira roqueira ao lado de sua banda de apoio, a Rollermax, Hudson Cadorini anunciou nesta semana que está de volta à música sertaneja ao lado do mesmo Edson?
Para surpresa de muitos, inclusive a minha, muita gente boa que entende de rock e heavy metal já tinha elogiado bastante as performances vigorosas de Hudson em sua porção sertaneja, ao lado do irmão Hudson.

Em meio às abomináveis músicas da dupla sertaneja, o guitarrista fazia questão de enfiar fraseados em alta velocidade e solos de clara inspiração metaleira.

Na única vez em que tive o desprazer de ver um DVD e ouvir um CD da dupla, em uma festa na cidade de Jundiaí pouco tempo depois do lançamento de “Turbination”, percebi que realmente Hudson Tinha uma performance roqueira e que de vez em quando conseguia se livrar das amarras do gênero abominável para encaixar alguns solos mais roqueiros – claro, em quantidades insuficientes para fazer qualquer apreciador de rock de bom senso a encarar uma sessão de tortura ao assistir um DVD dupla apenas por causa de meia dúzia de lampejos metaleiros.

Entretanto, o fato é que a encarnação de Hudson no rock tinha boa qualidade. “Turbination” é um álbum agradável, onde o guitarrista mostra bastante qualidade como instrumentista – apesar da escorregada feita nas três musicas com vocais, remetendo ao pior dó rock nacional dos anos 80.

Houve um trabalho interessante também lançado em DVD em 2009, um registro ao vivo chamado “O Massacre da Guitarra Elétrica”, ao lado da Rollermax, onde ele destila competência na execução de várias versões do hard rock.

Ele e sua banda abriram o excelente show do ZZ Top em São Paulo, no ano passado, com boa receptividade, e seu segundo álbum solo estava parcialmente gravado, inclusive com as participações especiais acertadas de Mike Inez (baixista, Alice in Chains) e Matt Sorum (ex-Guns ‘N Roses).

Por isso tudo é que é uma notícia péssima para quem gosta de boa música o retorno de Hudson ao meio sertanejo. Significa que ele fracassou na sua vertente roqueira – e que não legou nem mesmo um álbum de inéditas durante a separação da dupla sertaneja, já que seu segundo solo ainda não tem data para ser lançado.

Que a ida de Cadorini para o rock era arriscada, não se discute. Ele decidiu conscientemente abandonar uma parceria de enorme sucesso de anos com o irmão na música sertaneja para cair de cabeça no mundo pantanoso e instável do rock pesado nacional. Por mais que tivesse nome e certo apoio de promotores de shows, acabou abandonado aos leões pelo público e pelo mercado fonográfico. 

O preconceito por causa de seu passado sertanejo pesou? De certa forma sim. Não foram poucos os críticos de rock que o rotularam de oportunista, a despeito das resenhas positivas que “Turbination” recebeu no Brasil e no exterior. Foi determinante para o seu fracasso? Talvez não, mas ajudou um bocado.

As entrevistas que Hudson concedeu a revistas especializadas em rock à época do lançamento de “Turbination” indicavam que ele não renegava o passado, mas que a sua praia era realmente o rock, mesmo afirmando que tinha crescido ouvindo música caipira e sertaneja e gostava do estilo. Uma ruptura com o irmão era questão de tempo.

É de se lamentar a decisão do guitarrista, mas é bastante compreensível e, de certa forma, justificável. Ainda é cedo para falar em erros na condução da transição para o rock, mas fica evidente que Hudson Cadorini encontrou um ambiente inóspito e hostil.

Se sua iniciativa solo com o primeiro álbum foi vista como apenas uma excentricidade de um astro do sertanejo, a despeito da boa qualidade do material, a partir do momento em que decidiu mudar de ares deixou de ser levado a sério por boa parte do mercado.

 

Fez bem menos shows do que deveria e merecia e acabou tendo problemas por conta da demora na gravação e produção do segundo álbum – e não ajudou muito o fato de que se dedicou à música instrumental, algo ainda pouco digerível pelo público brasileiro, em especial o de rock pesado.

O rock nacional perde um bom artista e alguém que poderia acrescentar algo a um segmento que anda estagnado e que carece de caras novas com potencial para surpreender.

Não que isso necessariamente fosse acontecer em relação ao trabalho de Cadorini, mas era uma esperança de que, com a transição do guitarrista e uma eventual carreira com algum sucesso, pudesse abrir as portas para outros nomes ainda alternativos para arejar o segmento. Infelizmente isso não vai acontecer tão cedo.

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