Huaska cria a 'bossa metal'

Estadão

27 de abril de 2012 | 06h54

Marcelo Moreira

Quando o cavaquinho entra esboçando um chorinho tradicional, o ouvinte pensa logo em samba e se prepara para a entrada do batuque. Em vez disso, guitarras pesadas, bateria marcante, um baixo gordo e letras em português de um romantismo exacerbado, indo além do que as tradicionais bandas emo ousaram.

A banda paulistana Huaska teve a coragem de adicionar elementos de música brasileira de uma forma inédita, e com uma coragem difícil de encontrar no mundo da música atualmente. Se Raimundos e Paralamas do Sucesso, apenas para citar alguns, incluíram elementos regionais em suas músicas, o Huaska foi mais radical e incorporou o samba e a bossa nova de forma integrada, e não apenas como meros arranjos.

Ficou estranho? Sim, especialmente para quem não tem ideia do que vem pela frente. Mas a “bossa metal” do quinteto – rótulo inventado por um jornalista mineiro – teve o mérito de chamar a atenção de um dos mais renomados músicos e arranjadores brasileiros. Eumir Deodato, que trabalhou com Tom Jobim e a cantora islandesa Bjork, entre outros, ouviu os primeiros CDs do grupo e aceitou o desafio de mesclar os arranjos brasileiros com a pegada pesada da banda.

“Adicionamos elementos de MPB desde que criamos a banda, em 2003. O que era um detalhe, acabou se tornando uma de nossas características, e fomos aprofundando, trazendo samba, a bossa nova, o chorinho, e instrumentos como pandeiro, tamborim, cuíca, surdo e o violão”, diz Rafael Moromizato, o vocalista.

A mistura de gêneros resultou em uma música diferente, e que reflete bem as influências difusas e diversas dos integrantes. “As letras tem influências de bandas e compositores que eu escuto, como Chico Buarque, Toquinho, Nirvana, Cartola, O Rappa, Legião Urbana, Cazuza, Secos & Molhados, Pearl Jam, Novos Baianos, Rita Lee, Deftones…”, enumera o vocalista.

E as letras mostram também uma tentativa de erudição completamente distinta do terreno pantanoso e estéril que domina o rock nacional da segunda década do século XXI. Independente do resultado, adaptar o conto “O Machete”, de Machado de Assis, demonstrou novamente coragem e ousadia, com seu arranjo complexo de violoncelo e a interessante condução do violão de Alessandro Manso.

“O tema principal do conto é o amor e suas desilusões, vem ao encontro de nossa concepção. Além disso, é uma radiografia do cenário musical brasileiro de uma época muito legal, que mostra o convívio da música erudita e a popular no dia a dia, protagonizado pelos músicos do violoncelo e do machete, que é o cavaquinho”, afirma o guitarrista Carlos Milhomem. “Na nossa versão, é a mulher machadiana que conta sua versão da história entre os dois músicos. Daí, pra usar violoncelo e cavaco na música, junto com o rock pesado, foi natural.”

“Samba de Preto” é o nome do terceiro álbum do Huaska que deve ser lançado nas próximas semanas. O título não economiza na polêmica, em se tratando de um grupo que assume que faz rock pesado. Milhomem não esconde que os integrantes se surpreenderam com a receptividade ao som da banda. “Nós esperávamos que mistura agradasse a uma parte dos roqueiros mais ecléticos, que ouvem de tudo, mas nunca nos surpreendeu o fato de o público e músicos da MPB gostarem.”

Estranhamento à parte, a bossa metal do Huaska está mais lapidada em “Samba de Preto”, com produção caprichada assinada por Adair Daufembach, que tem prestígio no cenário brasileiro de heavy metal.

Por mais que seja difícil ouvir certas partes da música do quinteto paulistano, os músicos mostraram coragem ao encampar a proposta polêmica e têm o mérito de conseguir fazer algo diferente e inusitado em um cenário estéril e pasteurizado no rock nacional. Não é pouca coisa.

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