Holograma patético e desafinações marcam ‘homenagem’ a Renato Russo

Estadão

03 de julho de 2013 | 17h00

Regis Tadeu – do blog Na Mira do Regis

É impressionante ver o que a falta de noção pode propiciar em termos de “vergonha alheia” quando o assunto em pauta é “homenagens”. E isto piora muito quando o lance é feito para prestar algum tipo de “tributo póstumo”. Só que as coisas estão fugindo ao controle quando tais eventos fazem uso de uma das maiores picaretagens já presenciadas no show business: os tais hologramas, em que artistas já falecidos são mostrados no palco por meio de imagens das mais variadas formas e de modo interativo com um grupo de músicos.

No fundo, é uma abordagem excessivamente grandiosa de algo muito comum na vida de quem é instrumentista. É como se você chamasse seus amigos músicos para um churrasco e para “fazer um som”, só que tocando em cima daquilo se vê em um DVD. Mas o grau de oportunismo travestido de pseudointenções mais nobres que vem assolando o mercado de shows beira a indecência. Não sei se rolaram outros, mas lembro no momento em que escrevo de apresentações holográficas do Tupac Shakur e, pasmem, do Elvis Presley!!! Falta pouco para que as pessoas passem a fazer sexo com os hologramas de suas atrizes pornôs favoritas…

Fiquei pensando nisto enquanto assisti a uma das maiores atrocidades já cometidas no intuito de se homenagear alguém. Quem assistiu a Renato Russo Sinfônico, uma apresentação idealizada pelo filho do cantor, Giuliano Manfredini, transmitida no último sábado ao vivo pelo Multishow diretamente do estádio Mané Garrincha, em Brasília, e contando com uma série de convidados especiais, deve ter se perguntado onde foi parar o senso crítico de todos os envolvidos…

O show inteiro foi uma tortura indescritível. Apresentado pelo ator Fabricio Boliveira, protagonista do péssimo filme Faroeste Caboclo, o espetáculo teve as participações – todas constrangedoras – de Lobão, Fernanda Takai, Zélia Duncan, Ivete Sangalo, Alexandre Carlo (Natiruts), Ellen Oléria (vencedora do programa The Voice Brasil), Jerry Adriani, Luiza e Zizi Possi, Sandra de Sá e, acredite se quiser, Renato Rocha, o popular “Negrete”, ex-baixista do Legião que até pouco tempo atrás vivia como mendigo nas ruas e, a julgar por seu desempenho no show, cantando e tocando como uma lontra com bursite, não deve sair de lá tão cedo. Os caras conseguiram errar quase tudo em “Que País é Esse?”, uma canção com apenas três acordes que qualquer criança consegue tocar com os olhos fechados.

E depois de tanto sofrimento, veio aquilo que a plateia débil mental mais esperava: acompanhado pela orquestra, surgiu o holograma de Renato Russo cantando “Há Tempos”. É incrível alguém acreditar que é possível ter a sensação de estar diante de Renato unicamente ao tentar recriar – e falhar miseravelmente – um ambiente digital dentro de um estádio, mas ao ver certas pessoas presentes indo ao delírio, cheguei à conclusão que a presença da Humanidade neste planeta talvez tenha sido um grande erro.

Primeiro, foi aquele “show-mico” com Wagner Moura mais desafinado que um gnu com a garganta cortada. Agora, isto. Tenho certeza que o cadáver de Renato Russo está rodopiando até agora dentro do caixão. Coitado…

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