Henry Butler: as teclas da percepção

Estadão

10 de agosto de 2012 | 15h00

Jotabê Medeiros

Em terra de pianista, quem tem os sentidos mais aguçados é rei. Cego por um glaucoma desde o nascimento, Henry Butler tornou-se, há mais de três décadas, um dos mestres do piano em New Orleans, no Sul dos Estados Unidos (onde trompetista e pianista são tão comuns quanto percussionista em Salvador).

Aos 63 anos, Butler poderia ter se contentado com esse papel, o de pianista de excelência que ganhou mais de 10 vezes o prestigioso prêmio Pinetop Perkins. Mas não estava satisfeito. Virou também um dos raros fotógrafos cegos do seu país, objeto de um documentário que estreou na semana passada na TV americana, Dark Light (HBO).

Um assistente o ajuda com questões sobre distância do objeto, luz, posição em relação ao que fotografa. Também fundou um centro de educação artística para adolescentes cegos (ele começou a tocar aos 6 anos).

Seu insidioso piano sulista, que mistura do boogie woogie às atmosferas monkianas, do funk a Chopin, o pôs na ponta de uma nova tradição musical (ele estudou com Alvin Batiste, Professor Longhair, James Booker, entre outros). Em sua quarta viagem ao Brasil, Henry Butler desembarca em São Paulo hoje para participar da festa de 10 anos do Bourbon Street Fest, e falou ao Estado por telefone sobre suas carreiras como compositor, músico, fotógrafo e pianista.

Pode-se dizer que sua maior influência foi Alvin Batiste (clarinetista que tocou com Ray Charles em 1958 e com Ornette Coleman nos anos 1960)?

Sim, ele foi meu principal mentor. Um mestre extraordinário, que estava muito à frente deste tempo no seu jeito de ensinar música. A primeira coisa que me deu para tocar, eu ainda me lembro, foi uma peça panamenha. Procurava aberturas para outras culturas que não a americana. Toquei Hermeto Pascoal, Airto Moreira, toquei música da Nigéria. Ele sempre estava em busca de uma harmonia apropriada. Em suas mãos, aprendi os rudimentos e os fundamentos da música. Ele nunca tentava forçar as pessoas a tocar um gênero, só jazz, ou só rock, nada disso. Há muitos Batiste em New Orleans, mas é porque é um sobrenome comum, nem todos são parentes.

O que pretende tocar aqui em São Paulo?

Estou indo com um quarteto: guitarra, bateria, baixo e teclados. Três de nós no grupo somos também cantores. Vamos tocar principalmente blues e blues rock, e também algumas coisas internacionais, conhecidas.

E boogie woogie também, não? O sr. sabe, entrevistei o baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts, e ele disse que o boogie-woogie é na verdade oriundo de Chicago, não de New Orleans.

Havia boogie antes disso. Há o Texas boogie, mais evoluído, e há o que chamamos de Shuffle boogie. É como a discussão sobre a origem do jazz. Há gravações que poderiam mostrar que é daqui, mas havia gente tocando antes ali. Muito difícil de dizer.

O sr. também é um festejado fotógrafo. Qual é o significado da fotografia para o sr.?

A fotografia é uma arte ilusionista. Ou seja: o que você pensa estar vendo nem sempre é o que você vê. O que você vê pode ser diferente para outra pessoa, dependendo de como ela percebo aquilo, da sensação. Fotografia trata de capturar e perceber. A percepção é uma palavra-chave. É por isso que gosto de fotografar.

O sr. ouviu falar do fotógrafo Eugen Bavcar (fotógrafo esloveno também cego)?

Acho que já mencionaram o trabalho dele, mas não o conheci.

O sr. vende suas obras?

Sim, já vendi algumas. Muitas galerias e museus me pedem trabalhos. No momento, há uma mostra em New Orleans com algumas obras minhas. Há uma exposição no México também, com 7 fotógrafos, uma coletiva. Tem uma mostra na Rússia, que será aberta no dia 26. O documentário Dark Light mostra três fotógrafos cegos. Eu sou um deles. Estreou na semana passada.

BOURBON STREET FEST
Bourbon Street.
R. dos Chanés, 127, 5095-6100. Hoje e de 16 a 18, 21h30; 3ª e 4ª, 21 h – R$ 55/ R$ 125; dia 19, 11h – R$ 295; 16 h – grátis. Parque do Ibirapuera. Amanhã, 11 h. Grátis.

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