Heavy metal no sertão: o Roça'n'Roll cresce com credibilidade

Estadão

19 de março de 2013 | 07h04

Marcelo Moreira

Um festival com atrações internacionais, no interior do Brasil, longe dos principais centros e aparentemente com infraestrutura insuficiente. Isso seria o suficiente para desanimar os mais ardoroso fã de rock pesado, haja vista o fiasco do Metal Open Air, aquele que deveria ser o maior e melhor encontro de heavy metal da história da América Latina em São Luís, no Maranhão, em 2012.

A partir do momento em que se menciona o nome do festival – Roça’n’Roll -, tudo muda. Imediatamente os termos credibilidade e profissionalismo aparecem e o que era medo se transforma em, cobiça competição. Com disputa acirrada, conseguir uma vaga no evento de rock pesado de Varginha, no interior de Minas Gerais, a meio caminho entre São Paulo e Belo Horizonte, é equivalente a um passaporte para tempos de bonança no mercado brasileiro.

O festival metaleiro da roça é hoje o mais importante evento do heavy metal nacional, ainda mais depois da megalomania fracassada do Maranhão. A edição de 2013, a 15ª, já é considerada a mais importante de todas. São três atrações internacionais: os alemães do Grave Digger, banda alemã de heavy metal tradicional com 33 anos de carreira – e que gravou um álbum ao vivo e DVD no Brasil em 2005 -, os israelenses do Orphaned Land – grupo que mistura metal e world music e com engajamento político -, e o cantor inglês Martin Walkyer, ídolo dos apreciadores de folk metal e ex-vocalista do cultuado grupo Skyclad.

Mais do que atrações estrangeiras, o Roça’n’Roll é uma importante vitrine para grupos brasileiros de heavy metal mostrarem seus trabalhos autorais. “O evento cresceu, e tem de ter atrações que tenham apelo de público, mas é fundamentalmente um festival para que bandas brasileiras mostrem seu trabalho, já que ainda hoje não há muitas possibilidades de isso acontecer, mesmo em grandes capitais”, diz o mentor e organizador Bruno Maia, cantor e instrumentista da banda Kernnuna, de Varginha, e ex-integrante do mítico Tuatha de Danann.

Maia faz parte de um movimento curioso surgido no sul de Minas Gerais: o dos músicos adoradores da cultura celta. Líder do “movimento”, ajudou a criar o Tuatha de Danann, grupo local com fortíssimas influências de Jethro Tull, Clannad e The Chieftains, os dois últimos pilares da moderna música pop irlandesa com sotaque gaélico-celta. O Tuatha, com quatro álbuns e dois DVDs lançados, está de recesso, e deu origem a projetos paralelos, como o Braia e o Tray of Gift, além de inspirar amigos como os da banda Cartoon.

“O evento surgiu quase que como uma brincadeira, foi uma ideia para juntar amigos da região e fazer um som, com pinga e cerveja a preços baixos e uma diversão. Em dois anos a coisa cresceu e virou um minifestival, até que amigos de outras bandas e de outros lugares do Brasil quiseram participar. Quando vimos o festival começou a se esparramar por três e com mais de 20 atrações. Todo mundo queria participar”, diz Maia.

Sem muito alarde, mas prezando pela qualidade, as últimas cinco edições priorizaram a profissionalização e a ampliação do evento, mas sem exageros. A Fazenda Estrela foi local escolhido, a pouca distância do centro de Varginha, com espaço para a instalação de infraestrutura suficiente para, em um pico de afluência de público, receber quase 10 mil pessoas em três dias – em 2013 o festival começa na sexta, dia 30 de maio, e termina no domingo, 1º de junho.

Há área de camping, nos moldes do festival alemão Wacken Open Air, linhas de ônibus regulares de hora em hora durante parte do dia e boa infraestrutura de alimentação e venda de merchandising. Varginha, por sua vez, tem uma razoável rede hoteleira, com hotéis de médio padrão, pousadas e casas para aluguel a preços  não extorsivos.

Além das atrações internacionais, chama a atenção deste ano a volta do Tuatha de Danann, o grande nome roqueiro da região, em princípio se reunindo apenas para este evento. Também está programada o que está sendo considerada a verdadeira estreia do Kernnuna, o novo projeto musical de Bruno Maia, que promete radicalizar ainda mais a simbiose entre rock pesado e folk music com base na música celta. Entre as bandas brasileiras são destaque NervoChaos, Malefactor, Cartoon, Metalmorphose, Attomica, Drowned e Cracker Blues. Os ingressos começaram a ser vendidos nesta semana e mais informações podem ser obtidas no endereço eletrônico www.rocainroll.com.br.

Trabalho social

Mais do que cultura, o Roça’n’Roll se transformou em um importante projeto social do sul de Minas Gerais. Com apoio da Prefeitura de Varginha, Bruno Maia e sua equipe criaram o Camp (Projeto Criação, Apreciação Musical e Performance), que atua na área de educação infantil.

Durante um semestre, músicos da região e convidados dão aulas gratuitas de músicas a crianças da zona rural da cidade e, eventualmente, de toda a região, em um processo que foi considerado modelo em simpósios e conferências de educação no Brasil.
Da mesma forma, o Roça’n’Roll promove workshops e seminários gratuitos especificamente para fãs e músicos do sul mineiro. Por enquanto esse projeto está parado, mas há a previsão de retomada em breve, talvez ainda em 2013.

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