Há 30 anos, o Stress 'inventava' o heavy metal no Brasil

Estadão

20 de agosto de 2012 | 06h51

Marcelo Moreira

O heavy metal brasileiro “nasceu” na improvável cidade de Belém, capital do Pará. Ainda hoje tal informação causa espanto, por mais que a banda Stress seja bastante cultuada até mesmo fora dos circuitos mais pesados.

As referências são as de sempre: Sepultura, Sarcófago e Overdose em Belo Horizonte, Dorsal Atlântica no Rio de Janeiro, Centúrias e Harppia em São Paulo… Mas quem gravou o primeiro álbum de heavy metal brasileiro foi o Stress, banda paraense que encarou quase quatro dias de viagem de ônibus até o Rio de Janeiro para registrar seu primeiro álbum autointitulado em1982.

O 30º aniversário da gravação é um marco no rock nacional porque demonstrou a força de um movimento que se tornou o mais importante no underground brasileiro.

Mesmo com Judas Priest, Motorhead, Iron Maiden e Saxon fazendo um som pesado no final dos anos 70, foi somente em 1980 que o heavy metal ganhou força e importância para virar subgênero na Inglaterra, em tempos de decadência do punk. E esse movimento apenas dois anos depois já ganhava um representante no Brasil.

São 30 anos de história, mas apenas quatro álbuns gravados. A tortuosa história do Stress foi marcada por longas hibernações, embora o grupo esteja na ativa novamente e com planos de gravar outro trabalho.

Embora integrantes e ex-integrantes de vez em quando minimizem o fato de estarem em Belém, é fato que a distância dos grandes centros do Sul e Sudeste, onde o rock sempre teve penetração maior, influenciou o desenvolvimento da carreira do grupo. A falta de uma cena mais consistente e a impossibilidade de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro ou em São Paulo ditou o ritmo de trabalho.

Formação atual: Chamon (esq.), Bala e Paulo Gui

O pioneirismo talvez tenha cobrado um preço alto demais dos paraenses, mas isso em nenhum momento serviu de justificativa para eventuais frustrações. O Stress se orgulha de sua história, mas continua a escrevê-la, ao contrário do que se imaginou diante de tantos anos de hibernação.

Roosevelt “Bala” (baixo e vocais), Paulo Gui (guitarra) e André Chamon (bateria) seguem se divertindo em suas comemorações e sendo reverenciados em diversas partes do Brasil.

Para boa parte dos críticos musicais e parcela expressiva de especialistas em som pesado no Brasil, o Stress é considerada a primeira banda de heavy metal deste país. Nasceu no ano de 1974, em Belém, uma cidade mais afeita aos modismos midiáticos, mas com fortes raízes musicais da região amazônica.

Na época ainda sem nome permanente, a banda se chamava Pingo D’água, fazia versões para clássicos de Rolling Stones, Nazareth, Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple. A formação tinha Wilson Mota (guitarra), Paulo Lima (baixo), André Chamon (bateria) e Leonardo Renda (teclado). A entrada de Roosevelt Bala nos vocais aconteceu dois anos depois, sendo que as primeiras apresentações em Belém ocorreriam somente em 1977.

A batalha para arrumar lugar para tocar e encontrar um público local que tivesse ao menos alguma afinidade com o rock foi imensa. Foram muitos shows cancelados e apresentações para poucos e desinformados. Mesmo assim, firmaram o nome na incipiente cena roqueira paraense e alguns anos depois formaram um público cativo.

A completa ausência de cultura e qualquer tipo de infraestrutura rock em Belém retardou o lançamento de qualquer coisa, motivando a decisão de gravar no Rio de Janeiro em 1982, mesmo que em condições bem precárias, como revelou Bala em ótima entrevista à revista Roadie Crew na edição de agosto deste ano.

Capa do primeiro LP

Economizaram dinheiro por muito tempo até que conseguiram um bom e acessível esquema de gravação no estúdio carioca Sonoviso. Quase quatro dias dentro de um ônibus e finalmente a banda se instalava em uma pensão no bairro do Catete.

Apesar de ser um bom estúdio para a época, o fato é que o Sonoviso não deu muita bola para o Stress, até porque o rock passava longe dos clientes habituais do local. Técnicos e engenheiros de som ignoravam por completo que tipo de som aqueles caras tocavam – e mais ainda como captar aquele “barulho”.

Gravado na raça, como quase todos os primeiros registros do metal nacional entre 1983 e 1987, o primeiro álbum do Stress mostrou que era possível fazer rock pesado em português, mesmo com os obstáculos imensos que os artistas enfrentavam há 30 anos.

Enquanto alguns artistas da atualidade não pensam duas vezes antes de criticar o cenário nacional e até mesmo o público por conta de o metal continuar relegado a uma posição ainda secundária, a saga do Stress é um exemplo de persistência e amor ao rock e ao heavy metal. Que venham logo os novos trabalhos em 2013.

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