Gloria: crônica de uma vaia anunciada

Estadão

26 de setembro de 2011 | 23h00

Jotabê Medeiros

 Suado que nem um lutador de sumô, o vocalista Mauricio Vieira, o Mi, da banda Gloria, sai do palco enquanto seus colegas trocavam de guitarra e baixo para tomar um copo d’água. Um copinho que ele abriu com uma batida de polegar, sem olhar para o objeto. “Tá bem? Tá bem? Dá pra continuar?”, perguntava um dos seus produtores.

Ofegante, Mauricio fez que sim com a cabeça, mas pareceu nem olhar para o interlocutor. Estava em transe. A banda que até uns 5 anos atrás pegava busão na periferia de São Paulo para ir à Galeria do Rock, ouvir os discos dos caras que os inspiravam (Slipknot, Metallica, Motörhead) estava, agora, abrindo a noite para seus ídolos.

De cima do Palco Mundo, dava para sentir o nervosismo de Mi, Elliott (guitarra), Peres Kenji (guitarra), Jhonny (baixo) e Eloy (bateria). Afinal, havia umas 100 mil pessoas à sua frente, gente que passou três dias acampada ao relento, na chuva, para ver o Metallica. Gente que não parecia disposta a tolerar enganação. “Emo é tudo igual”, bradava um sujeito com a camiseta do Motörhead na fila do Bob’s. “Tem mais é que se f…”.

Mas o Gloria gostaria de discutir esse rótulo com o cara na plateia. “Existe uma diferença, NX Zero não é igual ao Fresno, que não é igual ao Gloria, que não é igual ao Restart e todo mundo acaba associando as bandas da mesma geração e acabam achando que é tudo igual”, disseram, certa vez, em entrevista ao site Oba Oba.

Ok, mas o Gloria facilitou. Afinal de contas, quem mandou batizar uma música com o título A Arte de Fazer Inimigos? (foi a 11ª do seu repertório de 12 canções sob o fio da navalha dos fãs do metal pesado). Ao longo do seu show, o telão tentava ajudar com umas imagens de mistério de filme de terror (símbolos satanistas, números 666 na tela), e as músicas hospitalares como Anemia e Sangue se sucediam.

“Vai pagar por me conhecer”, diz outra canção que o Gloria enfiou no repertório. Ameaça ou propaganda de companhias telefônicas? No meio da plateia, dava para ver um ou outro dedo médio em riste, mas quando Mi Vieira ia para a beirada e jogava seu estilo headbanger moicano para cima da multidão, funcionava muito.

O retrato do show estava na cara do Gloria quando tudo terminou. Enquanto o pessoal da produção arrastava sua bateria para fora, e os instrumentos de Coheen and Cambria e Slipknot começavam a ser montados no palco, eles se abraçavam com os roadies e pulavam euforicamente. “Vocês conseguiram, velho! Vocês conseguiram!”, berrava um produtor.

Aparentemente mais calmo, mas não menos suado, Mi confessava: “Eu tô há um ano sem dormir por causa desse show”, disse. “Claro que a gente tava com medo, são algumas das maiores bandas do planeta. Teve um início de vaia, mas depois a gente virou”, afirmou.

No Rio de Janeiro, na noite de ontem, enfiados no meio do público do Motörhead com suas cervejas, alguns garotos paulistanos tatuados estariam com caras mais felizes do que o pessoal ao redor. Eles atravessaram um campo minado e saíram ilesos.

 

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