Glenn Hughes e David Coverdale planejam projeto para comemorar os 40 anos de 'Burn'

Estadão

19 de setembro de 2012 | 06h57

Marcelo Moreira

O cantor e baixista Glenn Hughes, com passagens maravilhosas por Deep Purple e Black Sabbath, adora contar sobre a briga que travou com o guitarrista Ritchie Blackmore em 1973, poucos dias depois de trocar o Trapeze pelo lugar de Ian Gillan no Purple.

Recém-contratado e muito bem recomendado, impressionou Blackmore e Jon Lord nos primeiros ensaios com o Deep Purple, tanto no baixo como nos vocais. Hughes tinha certeza que seria o vocalista, mas só ficou sabendo que a banda queria um vocalista “de ofício”, ou seja, não um cantor-instrumentista, duas semanas após ser aprovado e contratado.

Possesso, fez o que pôde para evitar a chegada de um cantor e fez questão de provar a cada ensaio que cantava muito. Nada, no entanto, fez com que Blackmore fosse demovido da ideia: tinha medo que um instrumentista que também cantava ganhasse mais destaque do que ele no Deep Purple.

E isso fatalmente aconteceria, já que Hughes é um monstro nos dois ofícios. Após um anúncio numa revista, um balconista de loja e cantor amador de blues soul se apresentou e deixou todos de queixo caído: David Coverdale foi imediatamente aprovado e o Deep Purple ganhou dois tremendos cantores.

O que pouca gente sabe é que Paul Rodgers, na época deixando o destroçado Free, foi convidado por Lord e Blackmore para cantar no Deep Purple. Em um restaurante de Londres, nem deixou os dois terminarem a proposta: “vocês estão loucos? Para que outro cantor se já contrataram Glenn (Hughes)?” Foi a vingança do baixista que também cantava.

Desde aquela época Hughes manteve uma certa rivalidade com Coverdale por conta de espaço. O vocalista cantava a maioria das músicas, mas o baixista insistia tanto que sempre conseguia ir além dos meros backing vocals. No primeiro álbum com a formação citada, “Burn”, Hughes praticamente faz duetos com Coverdale em todas as músicas – apenas “Mistreated” ficou de fora.

A terceira formação do Deep Purple: Paice (esq.), Hughes, Coverdale, Blackmore e Lord

Pois a rivalidade foi amainando ao longo dos anos e os dois cantores, que deixaram a banda em 1976, voltaram a ter contato nos anos 90 e ficaram amigos. Hughes fez backing vocals em músicas do Whitesnake, a banda na qual Coverdale é dono, em pelo menos dois álbuns e cantaram juntos em um evento beneficente em dezembro de 2000, em Los Angeles, chamado de Mark and Brian Christmas Show.

Doze anos depois os dois começam a pensar novamente em um retorno para apenas um show da formação do Deep Purple em que atuaram juntos, a chamada Mark III. Segundo Hughes afirmou quando passou pelo Brasil em 2008, ele e Coverdale tinham tentado em 2004 levar o projeto, mesmo que fosse apenas para um único show comemorativo.

Tiveram o sinal de verde do tecladista Jon Lord e um aceno positivo do baterista Ian Paice, mas sequer conseguiram qualquer contato com Ritchie Blackmore, desafeto dos dois desde 1975. Sofreram ainda dura oposição de Roger Glover e Ian Gillan, que estavam na época em plena atividade com o Deep Purple ao lado de Lord e Paice. Sem Blackmore, a ideia morreu.

Os dois cantores resolveram ressuscitar a ideia agora em 2012, mas não exatamente uma “volta” para um show do Deep Purple com a Mark III – até porque Jon Lord morreu em junho passado. Mas Glenn Hughes e David Coverdale podem realizar algo no próximo ano, para comemorar os 40 anos do lançamento de “Burn”, que marcou a entrada dos dois na banda.

Em entrevista à rede CBS norte-americana, Hughes comentou que existe essa possibilidade. “Jon Lord e nós dois sempre tentamos, mas Ritchie se recusava. Não conseguíamos falar com ele. Mandamos pombos correios e carteiros cavaleiros ao Castelo Blackmore, mas ninguém baixava a porta. Não era para acontecer.”

 

Coverdale (esq.) e Hughes nos bastidores do show beneficente Teenage Cancer Trust de 2006, em Londres, evento organizado por Roger Daltrey, do Who

“Estamos conversando semanalmente desde então. Eu e David queremos manter essa chama acesa, ano que vem ‘Burn’ completa 40 anos. Não vou dar dicas do que pode acontecer, mas nunca se sabe”, afirmou o baixista, que atualmente mantém carreira solo e é membro integrante do Black Country Communion, supergrupo que mantém ao lado de Joe Bonamassa (guitarra), Derek Sherinian (teclados) e Jason Bonham (bateria). No entanto, o próprio Hughes declarou na semana passada que essa banda está perto de acabar por conta da agenda abarrotada de Bonamassa, o que inviabilizaria uma turnê mundial do grupo.

A chamada Mark III, com Coverdale, Hughes, Blackmore, Paice e Lord, durou pouco menos de dois anos, entre 1973 e 1975, e lançou, além de “Burn”, o ótimo “Stormbringer” em 1974.

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