Glenn Hughes chega aos 60 anos pisando no acelerador

Estadão

08 de novembro de 2012 | 07h00

Marcelo Moreira

Glenn Hughes costuma ser uma pessoa que segue à risca as promessas que faz. Conterrâneo do ex-vocalista do Led Zeppelin, Robert Plant, com quem divide a paixão pelo time inglês Wolverhampton Wanderers (uma espécie de Bragantino da Inglaterra), o ex-baixista e cantor do Deep Purple e Black Sabbath firmou um compromisso com o amigo nas arquibancadas do estádio do Wolves: “nunca cantarei uma música do Led Zeppelin na minha vida, e você jamais cantará uma do Deep Purple da minha fase”.

Era brincadeira, mas Hughes levou a sério. E hoje, aos 60 anos de idade, o baixista mostra que levar a sério esse tipo de compromisso e mais ainda a sua carreira. E no ano em que completa 60 anos de idade, mostra que está muito mais em forma do que a antiga voz do Led Zeppelin.

Glenn Hughes está cantando melhor do que nunca. Quem ouviu o recém-lançado álbum “Afterglow”, do Black Country Communion, supergrupo liderado por ele e pelo guitarrista Joe Bonamassa, ficou impressionado como ele ainda consegue mostrar potência e qualidade mesmo depois de 45 anos na estrada.

Já Plant foi mais castigado pelo tempo e pelos excessos dos tempos do Led e viu sua voz desaparecer, o que o obrigou a mudar radicalmente a forma de cantar nos anos 90 – não só isso, ele teve de mudar de gênero musical, caindo de cabeça na country music e no folk.

Prodígio do baixo e com voz extremamente privilegiada, Hughes logo foi considerado um geniozinho da música na adolescência e era uma estrela na região de Birmingham e Wolverhampton. Já aos 15 anos tinha passado por uma série de bandas, sempre mirando o estilo de gente como Beatles, Yardbirds, Kinks e o blues norte-americano.

Em 1970, aos 18 anos, criou o Trapeze, que variou no começo entre um trio e um quarteto, para depois se estabilizar com Hughes no baixo, Mel Galley nas guitarras e Dave Holland na bateria, na formação clássica.

Insuflado por amigos e por fãs, em algum momento Hughes realmente achou que era um astro e gênio no final da adolescência, mas o Trapeze demorou para conseguir algum reconhecimento, e ainda assim não estourou.

Estrelato

Entretanto, foi o suficiente para catapultar o baixista e vocalista para o Deep Purple em 1973, na vaga deixada por Roger Glover. Imaginou que seria também o vocalista, mas teve de aturar a chegada de David Coverdale no lugar de Ian Gillan. As rusgas do tempo de Deep Purple deram lugar a uma amizade duradoura entre os dois a partir do final dos anos 70.

Astro e com a condição de prodígio da música reconhecida no Deep Purple, teve pouco tempo para desfrutar a glória, já que o grupo implodiu em 1976. Em meio aos excessos de drogas e bebidas, conseguiu gravar ainda em 1977 o seu primeiro álbum solo, “Play Me Out”, dando pistas que seguiria firme na trilha da soul music. O álbum é muito bom, mas teve pouca repercussão.

A partir de então sua carreira teve mais baixos do que altos até o começo dos anos 90. Colaborou com muitos artistas, fez participações especiais em álbuns de milhões de cantores e bandas, mas nada de grande repercussão.

Em 1982 gravou o excelente “Hughes/Thrall”, ao lado do guitarrista Pat Thrall (que tocaria no Asia anos depois), mas o trabalho foi ignorado pelo mercado. Três anos depois gravou algumas músicas com o guitarrista Gary Moore, e duas delas foram utilizadas no álbum “Run for Cover”, de Moore.

Sem perspectivas e cada vez mais afundado nas drogas, o que parecia ser a salvação se mostrou um completo desastre, ao menos em termos pessoais. Tony Iommi tentava em 1984 juntar os cacos de mais uma separação do Black Sabbath e pretendia gravar um álbum solo. Interessou-se pelo bom desempenho do amigo Hughes com Gary Moore e o convidou para o seu projeto no ano seguinte.

Parecia que ia dar certo, até que a gravadora obrigasse Iommi a lançar o trabalho como Black Sabbath, e não só com o seu nome. Se alternativas, criou-se uma nova versão do Sabbath, o que desagradou profundamente o baixista.
“Seventh Star” saiu em 1986 e é um álbum surpreendentemente bom, dadas as circunstâncias e as turbulências pessoais de Hughes. Há pelos menos três clássicos do heavy metal no trabalho: “No Stranger to Love”, “Heart Like a Wheel” e “Seventh Star”.

Mas os abusos do baixista com as drogas começaram a cobrar o seu preço ao final das gravações e no início da turnê norte-americana de 1986. Brigando com todo mundo e cantando muito mal, Hughes saiu após o quarto show da tour e foi substituído às pressas por Ray Gillen (Badlands). No fundo do poço, ficou no ostracismo por seis anos, entrando e saindo algumas vezes em clínicas de reabilitação.

Renascimento

Desaparecido, finalmente ressurgiu em 1992 com o seu segundo álbum solo, “Blues”, um estupendo álbum de hard rock , lançando dentro da série “L.A. Blues Authority”. Revigorado e longe das drogas e das bebidas, um novo artista dá as caras: profissional, focado e obsessivo com o trabalho.

Desde então lançou mais 14 álbuns solos, sendo três ao vivo. Cada vez mais funky e mergulhado na soul music, não esqueceu o hard rock em álbuns importantes, como “Building Machine” e “Return to the Crystal Karma”. O lado soul aflora em ótima qualidade em “Fron Now On” e “Addiction”. O metal não ficou longe: voltou a trabalhar com o amigo Tony Iommi, com quem gravou dois álbuns, “Dep Sessions” e “Fused”, excelentes, por sinal.

Admirado pela velha guarda do rock e pelos artistas mais novos, surpreendeu todo mundo quando aceitou trabalhar com o então novo amigo Joe Bonamassa, prodígio da guitarra blueseira dos anos 2000.

 

Black Country Communion: Bonamassa (esq.), Bonham, Hughes e Sherinian

Formaram o Black Country Communion em 2010 ao lado de Jason Bonham (bateria, filho de John Bonham, do Led Zeppelin) e Derek Sherinian (teclados, ex-Dream Theater) sob a inspiração de Kevin Shirley, grande produtor de Iron Maiden e Dream Theater, entre outros. O sucesso foi imediato, com o lançamento ainda em 2010 do primeiro álbum da banda, autointitulado.

O sucesso já indicava, por outro lado, uma grande dificuldade, prevista por Hughes desde o começo: a quantidade insana de projetos e trabalho de Bonamassa, que poderia inviabilizar a realização de turnês. O guitarrista, em dois anos, gravou e lançou quatro álbuns solo (um ao vivo), quatro com o Black Country (um ao vivo) e outro com a cantora norte-americana Beth Hart.

Hughes tinha razão: o workaholic Bonamassa praticamente implodiu a banda neste final de 2012, durante as gravações e lançamento de “Afterglow”, outro maravilhoso álbum do grupo.

O baixista e vocalista não perdeu a oportunidade de criticar o colega por não encontrar tempo para o Black Country e continuar privilegiando a carreira solo no mesmo patamar de importância. E vaticinou há dois meses: “Afterglow” é provavelmente o último trabalho da banda, já que ele “precisa estar em constante atividade com uma banda fixa e coesa”.

E, mesmo aos 60 anos de idade, não quer saber de tirar o pé: já está engatando um projeto chamado Kings of Chaos para 2013, ao lado de Joe Elliott, cantor do Def Leppard, onde interpretará grandes temas de classic rock. Olhando por esse lado, quem é que  é mesmo workaholic?

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