Girlschool, a resposta inglesa às Runaways

Estadão

15 de outubro de 2010 | 16h19

Marcelo Moreira

As Runaways, retratadas no filme “The Runaways – Garotas do Rock”,  inspiraram o surgimento de outra banda feminina de rock pesado, mas na Inglaterra – e que também merece um filme sobre sua trajetória. O Girlschool ousou mais e caiu de cabeça no heavy metal, com um som mais pesado e mais rápido, caindo logo nas graças dos integrantes do Motorhead, que as apadrinharam. Não obtiveram o mesmo sucesso, mas mostraram o caminho para as mulheres que não tinham medo do machismo roqueiro.

A formação básica tinha Kim McAuliffe (guitarra e vocais), Enid Williams (baixo), Denise Dufort (bateria) e Kelly Johnson (guitarra), que se juntou em Londres em 1977. Mais agressivas e menos bonitas do que as Runaways, não foram levadas muito a sério no começo da carreira, mas o empurrão de Lemmy Kilminster, baixista, vocalista e líder do Motorhead, foi fundamental para que assinassem o primeiro contrato de gravação.

Formação da banda em 1980

Desde cedo os empresários que toparam trabalhar com as meninas perceberam que elas não poderiam ser trabalhadas como uma “armação” parecida com as Runaways.

Primeiro porque elas não eram bonitas; segundo, porque tinham inteligência e vontade própria;  terceiro,  porque eram verdadeiramente radicais e gostavam de música mais extrema, mais pesada; e quarto, porque eram uma banda de verdade, que começou como qualquer outra, e não um projeto criado por um empresário. O jeito foi  acentuar a imagem radical e mostrá-las como uma resposta inglesa às Runaways, que aquela altura, 1980, não exista mais.

É evidente que a imagem e o som das moças afugentou os apreciadores da “farsa radical-pop” das Runaways, mas elas caíram nas graças dos adoradores de heavy metal, até pelo apadrinhamento do Motorhead. Pelo menos dois álbuns são clássicos e imperdíveis: “Demolition” (1980) e “Hit and Run” (1981).

Entre os dois, o mais clássico ainda EP “St. Valentine’s Day Massacre”, com a participação dos integrantes do Motorhead na música “Emergency”, com um dueto maravilhoso entre Lemmy e Kim.

Formação atual do Girlschool

O sucesso veio de forma tímida, mas o suficiente para ganhar a confiança da Bronze Records, que continuou investindo. O problema é que as meninas tinham potencial, mas não estavam vendendo o esperado, apesar da boa aceitação entre os fãs de rock pesado.

Era uma época difícil, com muita banda de qualidade surgindo dentro da New Wave of British Heavy Metal, movimento que catapultou Saxon, Iron Maiden, Def Leppard, Tygers of Pan Tang e muitos outros. As meninas era boas, mas nem tão boas assim…

A mudança de direcionamento ocorreu meio que na marra, com o som sendo amenizado e o visual caindo mais para o glam rock, precedendo o que viria a se tornar uma praga, o visual carregado e os cabelos com laquê do hard rock californiano dos anos 80. “Play Dirty”, de 1983, foi reflexo dessa época, e as vendas caíram muito. O resultado foi a saída de Kelly Johnson no ano seguinte.

Ao longo dos 80 as meninas patinaram e não conseguiram manter o nível, ao mesmo tempo em que a formação ficava instável. O fim era previsível e veio em 1988. O retorno ocorreu somente em 2001, com a formação original. Kelly Johnson sai de novo em 2003 (morreu em 2007 de câncer em Londres), sendo substituída por Jackie Chambers, que está na banda até hoje.

Capa do álbum 'Legacy'

Os dois álbuns do século XXI, “Believe”, de 2004, e “Legacy”, de 2008, mostram uma banda bem mais madura e mais hard rock, com um trabalho excelente de guitarras. “Legacy” é um pouco mais pesado, com passagens de legítimo heavy metal. Contou as participações especiais de Dio, Lemmy, Phil Campbell (Motorhead), Tony Iommi (Black Sabbath), Eddie Ojeda e J.J. French (Twisted Sister), Fast Eddie Clarke (fastway e ex-Motorhead) e Neil Murray (ex-Black Sabbath).

O resultado em vendas surpreendeu e a banda prepara novo trabalho para o ano que vem. Se as Runaways chamaram a atenção por ser uma banda importante formada só por mulheres e que virou filme, a resposta inglesa também merece ser apreciada. Afinal, é melhor que que a boa, mas artificial, banda norte-americana.

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